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Josias de Souza

Tortura tritura o corpo, deboche estilhaça a alma

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/04/2022 09h29

Oficialmente, a ditadura terminou em 1985. Mas a tortura sobreviveu a 37 anos de democracia. O general Mourão disse que tudo já passou, faz parte da história. Engano. A tortura de brasileiros desarmados submetidos à custódia do Estado durante a ditadura é uma história que tem início e meio. Mas não tem fim. Se a tortura é condenada, vira história. Quando Mourão e Bolsonaro chamam de "herói", a tortura se torna parte do presente. Pior: ela se eterniza no futuro.

Mourão não gostou das verdades expostas no vozerio recuperado pelo historiador Carlos Fico nas 10 mil horas de gravação das sessões em que o Superior Tribunal Militar revolveu o lixo dos porões militares. É natural que o general desgoste dos relatos que confirmam suplícios impostos a presos desarmados, submetidos à custódia do Estado. Mourão prefere o lixo reciclado que o coronel Ustra expôs no livro "A Verdade Sufocada."

Entre risos, o vice-presidente da República tratou como piada a hipótese de investigação. "Apurar o quê? Os caras já morreram tudo. Vai trazer os caras do túmulo de volta?" A anistia assegurou a impunidade de práticas como o sequestro, a tortura e o sumiço de gente. Mas não apagou os crimes.

Assisti no cinema, em 2007, ao filme "Tropa de Elite". Havia nele uma cena em que o capitão Nascimento, da PM do Rio, buscava o paradeiro de um traficante chamado "Baiano". Para obter a informação, espancava um jovem e mandava que o torturassem, asfixiando-o com um saco plástico. A plateia aplaudiu a cena. Fiquei espantado.

Os aplausos ao capitão Nascimento se repetiriam em salas de cinema ao redor do país. Onze anos depois, Bolsonaro e Mourão prevaleceriam numa campanha presidencial em que aplaudiram o torturador Ustra. A tortura não virou história, como supõe Mourão. Ela se tornou método de investigação policial no Brasil. Com seu talento para o chiste, Mourão cria uma nova modalidade de suplício. A tortura convencional tritura o corpo. A tortura do deboche estilhaça a alma.

  • Assista ao UOL News e veja os comentários completos do colunista Josias de Souza: