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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Exposição criminosa da atriz Klara Castanho reforça surto de incivilidade

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/06/2022 11h25

Os casos da menina de 11 anos que ralou para exercer o direito de abortar após o estupro e da atriz de 21 anos atacada por destinar à adoção legal um bebê fruto de violência sexual demonstram que o problema do Brasil não é moral nem jurídico, é dramático. É como se a novela da vida real ultrapassasse a vilania do núcleo malvado de todas as novelas televisivas. A diferença é que a realidade não oferece o bom final da ficção.

Não importa o conteúdo do enredo. O final será sempre infeliz. Se a estuprada deseja abortar, é associada a um assassinato. Sofre estupro coletivo do hospital, da juíza, da promotora... Vira matéria-prima para que Bolsonaro transforme o aborto legal em politicagem eleitoral.

Se a violentada é uma atriz famosa como Klara Castanho e cede a criança para adoção, recebe o tratamento de um ser repulsivo. É maltratada pelo médico. A enfermeira a chantageia. O direito ao sigilo é ignorado. Vira fator de monetização dos cliques de Antonia Fontenelle, a youtuber bolsonarista, e de Léo Dias, o difusor de sensacionalismo.

Está em curso um momento de cretinismo nacional. Os sintomas de 500 anos de loucura reprimida vieram todos à tona. É como se o arcaísmo de Bolsonaro tivesse inspirado o núcleo vilão da sociedade a abrir todos os seus armários. O absurdo começa a subverter a única realidade ainda admirada pelo brasileiro: a ficção das novelas. O país está doente. O surto de incivilidade ajuda a potencializar a crise selvagem que o Brasil sofre. O país precisa se tratar.