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Leonardo Sakamoto


Enem sob Bolsonaro: do medo da censura à demonstração de incompetência

Posse do ministro da Educação, Abraham Weintraub em 9 de abril de 2019 - Antonio Cruz/Ag Brasil
Posse do ministro da Educação, Abraham Weintraub em 9 de abril de 2019 Imagem: Antonio Cruz/Ag Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

24/01/2020 22h09

Quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República, um dos receios quanto ao Exame Nacional do Ensino Médio era a possibilidade de censura por parte do governo.

Para ele, o maior problema da prova do Enem era uma paranoia vazia com questões com o que ele chama de "ideologia de gênero". Em novembro de 2018, indignado com uma das perguntas do exame que tratava de dialetos de minorias, prometeu que iria vistoriá-las antes para retirar conteúdo. Em suma, censura. "Podem ter certeza e ficar tranquilos. Não vai ter questão desta forma ano que vem, porque nós vamos tomar conhecimento da prova antes. Não vai ter isso daí", afirmou.

Apesar da ausência de questões sobre alguns temas, como a ditadura militar, não é possível dizer que a orientação ideológica do governo gerou prejuízo à prova.

A realidade apontou, contudo, que o principal problema envolvendo o Enem 2019 acabou sendo bem mais prosaico: incompetência aliada à soberba e à falta de transparência.

Estudantes que se sentiram prejudicados pelos erros no Enem 2019 estão registrando representações no Ministério Público Federal, que exige revisão geral da correção da prova, auditoria transparente nos processos e suspensão da seleção pelo Sisu - o Sistema de Seleção Unificado - enquanto tudo não for resolvido. As reclamações pipocaram nas redes sociais logo após o ministro Weintraub ter dito que este foi "o melhor Enem de todos os tempos" no dia 17.

O MEC recebeu mais de 172 mil reclamações sobre a nota, mas disse que encontrou erros em menos de 6 mil.

O último lance, nesta sexta (24), foi a suspensão da etapa de seleção do Sisu por determinação da Justiça Federal de São Paulo. As inscrições continuam até domingo. Mas até que o Ministério da Educação prove que a revisão das notas foi feita e que os candidatos, comunicados do resultado, a distribuição de vagas não poderá ser feita. A decisão acata um pedido da Defensoria Pública da União.

O Ministério Público Federal em Minas Gerais, também pediu a suspensão das inscrições e a alteração das datas do Fies e do Prouni, programas de financiamento e de bolsas estudantis.

Quando o MEC informou, em abril, que a gráfica que imprime o Enem, desde 2009, anunciara falência, quem acompanha a prova ficou apreensivo. Isso já seria um problema desgraçadamente grande se o ministério fosse gerido por um governo racional. Mas, transformado na Casa da Mãe Joana, com pessoas que não ficam no cargo o suficiente para esquentar a cadeira, sem planejamento, comando ou autocrítica e tendo sido loteado, na época, para pupilos de um polemista narcisista de extrema direita, a instituição estaria mais vulnerável a falhas.

Ao invés de indicar alguém à altura do desafio de formar cidadãos e profissionais, Bolsonaro primeiro atendeu a pressões de grupos fundamentalistas e descartou profissionais qualificados por questões religiosas. Queria alguém que pudesse levar às escolas sua cruzada em nome da tradição, da família e da propriedade. Que entendesse, segundo ele, que o país é "conservador". Primeiro, colocou Ricardo Vélez. Depois conseguiu piorar, com Abraham Weintraub.

Uma inversão inconsequente de prioridades. Apesar do Brasil contar com uma formação precária dos docentes e com alunos que saem do Ensino Médio analfabetos funcionais; assistir ao roubo, à ausência e à baixa qualidade da merenda escolar; pagar baixos salários aos professores e não fornecer estrutura suficiente em todas as escolas - metade não tem esgoto; o enfoque, até agora, é na guerra cultural.

Como já disse aqui, uma lição que o presidente ainda não aprendeu é que governar o Brasil não é dirigir um conversível esportivo, em um dia ensolarado, por uma estrada vazia e reta, sem buracos, nem obstáculos, com o canto de pássaros, um tanque cheio e o aplauso dos pedestres. É um rali, em um lamaçal, em fúria de tempestade, com árvores e pedras caindo a todo o instante, sob o risco de derrapar para um desfiladeiro, em um Fiat 147 lotado e cheio de goteiras, com mosquitos por todos os lados, ouvindo vaias da torcida e o tanque eternamente na reserva.

O Brasil precisa de um ministério que seja capaz de conduzir a Educação sob qualquer circunstância e não larga-la no meio do caminho para caçar fantasmas e combater moinhos de vento. Decisões assim cobram seu preço. E quem paga é a população.

Leonardo Sakamoto