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Leonardo Sakamoto


MPF faz nova farsa do triplex porque posso ser candidato em SP, diz Boulos

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

29/01/2020 18h36

O Ministério Público Federal em São Paulo denunciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos, por causa da ocupação do tríplex no Guarujá, em 16 de abril de 2018, em protesto contra a prisão de Lula.

O apartamento foi considerado pela força-tarefa da operação Lava Jato como propina paga pela construtora OAS. O então juiz federal Sergio Moro condenou o líder petista e o Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a decisão, autorizando o início do cumprimento da pena - que faria com que ele permanecesse 580 dias na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

A acusação é de que os manifestantes teriam violado o artigo 346 do Código Penal Brasileiro - "Tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha em poder de terceiro por determinação judicial ou convenção". A pena é de detenção de seis meses a dois anos e multa. Na época, o apartamento estava bloqueado pela Justiça em meio ao processo.

O MPF diz que Lula estimulou a ocupação. O ex-presidente, que nega ser dono do imóvel, afirmou em janeiro de 2018 que se a Justiça o considera proprietário, então que fosse dado a ele o apartamento. "Eu até já pedi para o Guilherme Boulos mandar o pessoal dele ocupar aquele apartamento. Já que é meu, ocupem."

Guilherme Boulos conversou com a coluna sobre a denúncia. Ele chamou o caso de "nova farsa do tríplex", lembra que não estava lá durante a ocupação e disse que o objetivo dela é intimidar, uma vez que quer sair candidato à Prefeitura de São Paulo e pelo fato do MTST fazer oposição cerrada ao governo de Jair Bolsonaro. Diz que nada foi danificado no prédio ou no apartamento. E afirma que está faltando ao MPF o que fazer.

"É muito engraçado que a instituição tenha tempo para fazer uma peça absurda como essa, criminalizando o movimento social, mas não para intimar o Queiroz, denunciar o laranjal do PSL ou o senador Flávio Bolsonaro." Leia a conversa com Boulos:

Como recebeu a denúncia contra você pela ocupação do tríplex?

É uma tentativa de um setor do Ministério Público de criar um circo político. Evidentemente é uma posição política de perseguição, a denúncia não para em pé. A própria delegada da Polícia Federal, quando fui intimado a tratar do caso, reconheceu que eu não estava lá. Querem criar um fato político, uma arbitrariedade. É a nova farsa do Triplex.

Teve acesso ao inquérito ou à denúncia?

Ainda não tivemos acesso. Nosso advogado foi a Santos (SP), pois é a delegacia da Polícia Federal de lá que está cuidando do caso.

O que pretendem fazer diante disso?

Primeiro, dar nome aos bois: isso não é uma peça jurídica. Isso é um panfleto político de setores do Ministério Público Federal. Nós não vamos nos intimidar porque o óbvio objetivo de uma ação como essa é o de intimidação. Meu nome está colocado, possivelmente, para a disputa da Prefeitura de São Paulo, enquanto o MTST e a Frente Povo Sem Medo seguem sendo importantes e mobilizados na oposição a Bolsonaro. O MPF também tentou envolver outros três militantes, em uma clara tentativa de criminalização de movimentos sociais.

A ocupação não assustou quem estava no prédio?

Foi um protesto pacífico e organizado de um movimento social. Os manifestantes não ficaram no apartamento mais do que três horas. Um protesto para uma denuncia de uma farsa judicial, que foi o processo do triplex contra Lula. As pessoas saíram pacificamente após o diálogo com a Polícia Militar. Naturalizar que isso seja tratado como ato criminoso é sinal dos tempos de bolsonarismo, de autoritarismo, de apologia à ditadura.

Vocês teriam, segundo o MPF, cometido o crime previsto no artigo 346 do código penal brasileiro. O que foi danificado na ocupação?

Nada foi danificado no prédio ou no apartamento. Digo mais: deve estar faltando o que fazer para alguns procuradores do Ministério Público Federal. É muito engraçado que a instituição tenha tempo para fazer uma peça absurda como essa, de criminalizar o movimento social, mas não tenha tempo para intimar o Queiroz, para denunciar o laranjal do PSL, para fazer uma denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro. É algo aberrante.

Leonardo Sakamoto