PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Leonardo Sakamoto


Caso FAB: Bolsonaro trata República como playground e inspira subordinados

Ex-secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini e presidente Jair Bolsonaro  -  Presidência da República/Alan Santos
Ex-secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini e presidente Jair Bolsonaro Imagem: Presidência da República/Alan Santos
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

30/01/2020 16h44

O governo Bolsonaro aloca um amigo de infância dos filhos do presidente, Vicente Santini, no segundo cargo mais importante da Casa Civil. O sujeito usa um avião da FAB para ir da Suíça à Índia, torrando dinheiro público. Bolsonaro dá piti e manda exonerar. Os filhos pedem pro papai repensar e ele é colocado em um cantinho, com o mesmo salário. Nova denúncia e o presidente demite de novo.

A culpa de toda a confusão para os seguidores do homem? Da imprensa golpista que se mete onde não é chamada. Talvez sobre para o ministro-chefe da pasta, Onyx Lorenzoni. Afinal, Bolsonaro & Filhos são inimputáveis. Mesmo quando transformam a República em um puxadinho do condomínio Vivendas da Barra, a culpa é sempre dos outros.

Bolsonaristas que pedem o fim do nepotismo e da indicação de amigos sem ética ou competência técnica para ocupar cargos públicos apoiam exatamente a pessoa que usa a máquina pública a seu favor e indica amigos da família para cargos públicos. Os mesmos que pedem o fim da corrupção louvam a pessoa que tenta, descaradamente, limitar as instituições de combate a esse crime. Os mesmos que criticam - com justiça - práticas fisiológicas da política, respaldam um político que, com suas ações, está garantindo que o fisiologismo continue alegre e saltitante.

Parte dos eleitores depositou seu voto em Jair Bolsonaro na esperança que o capitão fosse firme no combate a tudo isso aí. Preferiu acreditar em sua palavra, ignorando as denúncias de fantasmas que rondavam os gabinetes do clã. Fantasmas que, como descobrimos depois, tinham a incrível habilidade de transmutar rachadinhas em apartamentos e chocolates e alimentar famílias de milicianos.

Muitos descobriram, espancados pela realidade, que Bolsonaro só era diferente de outros deputados que utilizaram o Estado a seu favor e a serviço de sua família porque, como nunca esteve no centro do poder, não tinha acesso ao pote grande. Outros, contudo, seguem acreditando piamente que tudo isso é invenção da imprensa e da oposição.

Talvez não queiram dar o braço a torcer para seus amigos e vizinhos para ouvir um "eu te disse". Ou não se importem que Bolsonaro use helicópteros da Força Aérea Brasileira para transportar parentes e amigos para o casamento do filho ou que tenha tentado indicar o mesmo filho para o cargo de embaixador, afirmando vai dar sempre o filé para a sua cria sim - desde que ele continue atacando o comunismo imaginário. E há a parcela de seguidores fanáticos.

Esse último grupo reclama do fanatismo (real) de uma parte dos petistas quando o assunto é Lula, mas são incapazes de interpretar o mundo sem o gabarito dado por seu líder. Se o presidente disser que um laranjal é, na verdade, um abacate, eles prontamente vão para a rua, com faixas, bandeiras e camisas da CBF, dizer que sua guacamole jamais será vermelha.

Fabrício Queiroz? Essa pessoa não existe, é invenção da esquerda. Desvios de dinheiro público de Flávio Bolsonaro? Certamente, foi para comprar ambulâncias e construir escolas públicas. Chega-se à pachorra de defender Bolsonaro quando ele dobra as instituições para livrar a cara do filho senador - "ah, mas que pai não faria isso por seu filho?"

O presidente, ao longo do ano passado, como alertamos várias vezes aqui, foi comendo as instituições de fiscalização e controle da República em nome de seu projeto de poder e do bem-estar de sua família. Interferiu na Receita Federal, no Coaf, no Ministério Público Federal, na Polícia Federal. Deu tanto passa-moleque no ministro da Justiça, Sergio Moro, ignorando suas recomendações no combate à corrupção, que perdeu-se a conta. A carta branca prometida pelo presidente ao ex-juiz federal serve apenas para dizer "sim, presida".

Bolsonaro vai atacando as instituições democráticas tradicionais, seja pelo uso abusivo da máquina, seja por meio do seu esvaziamento ou loteamento - tudo para que o Estado sirva ao governante, sua família e amigos, em uma inversão da ordem democrática das coisas. Mudanças? Só quando muito pressionado pelas redes sociais. Caso contrário, toca em frente o barco que ninguém viu.

Não olha agora, mas enquanto a gente estava entretido reclamando de golden shower, o lema do governo mudou: "Meus filhos acima de tudo, meus amigos acima de todos".

Leonardo Sakamoto