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Doria estende quarentena em SP e mantém Bolsonaro em isolamento vertical

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/04/2020 13h50

A quarentena no Estado de São Paulo foi prorrogada até - pelo menos - 22 de abril e contará com a fiscalização da polícia. A decisão do governador João Doria se, por um lado, segue a recomendação de cientistas e médicos para retardar o avanço do coronavírus e salvar vidas, por outro irrita um Bolsonaro que tenta forçar o país a voltar à normalidade. A medida deve se repetir nos demais estados governados pelo bom senso, mantendo o presidente em isolamento vertical.

O cálculo de Jair não é de saúde pública, mas político. Ele sabe que, dependendo do tamanho da recessão causada pela paralisação da economia, sua reeleição se torna improvável e seu poder, uma peça de ficção.

Por mais que diga que se preocupa com vidas e empregos, não é isso o que tem demonstrado. Pois enquanto ameaça baixar um decreto ordenando que todos voltem ao serviço apesar do rápido crescimento no número de infectados e mortos, ele atrasa o pagamento da renda básica de R$ 600,00 para trabalhadores informais aprovada pelo Congresso Nacional.

Mesmo que comece o repasse dos recursos amanhã, como promete, a falta de planejamento já fez com que um naco dos beneficiários não seja alcançado rapidamente - e a fome já está sendo sentida segundo organizações que atuam com população em situação de rua, por exemplo. Isso sem contar que as medidas para que o governo arque com parte dos salários dos trabalhadores e ajude financeiramente as micro e pequenas empresas segue a passo de tartaruga.

Enquanto Bolsonaro depõe contra a vida, seu adversário político toma decisões acertadas em São Paulo. Os números mostram que as medidas de isolamento e distanciamento social estão reduzindo a taxa de infecção no Estado.

Mesmo assim, hospitais estão atingindo o seu limite. Ainda estamos longe do pico da doença e o vírus começa a se espalhar na periferia. Portanto, a manutenção do isolamento se faz necessária.

Doria em coletiva à imprensa, no começo da tarde desta segunda (6), disse que não é facultativo seguir a quarentena, mas obrigatório. E afirmou que a Polícia Militar vai agir para evitar aglomerações.

Vale ressaltar que, neste domingo, um ato de bolsonaristas na avenida Paulista pediu o fim da quarentena. Caso a decisão prometida por Doria estivesse valendo, forças de segurança teriam que atuar para dissipar manifestantes que chamavam a Covid-19 de gripezinha.

O anúncio da extensão acontece no momento em que setores do governo federal defendem o afrouxamento das medidas de isolamento após a Páscoa, o que agrada ao chefe. E enquanto Bolsonaro desfere pesados ataques contra seu futuro ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta - que cisma em atuar de forma racional e solidária, frente com à irresponsabilidade e do egoísmo de seu chefe.

A campanha do presidente Bolsonaro para que todos voltem ao trabalho usa como justificativa o conto de fadas do "isolamento vertical", ou seja, a segregação apenas de idosos e pessoas imunodeprimidas - como se fosse possível apartar milhões que se aglomeram em pequenas residências em comunidades pobres. O argumento é repetido por empresários que o apoiam, parte dos quais não tiveram pudor para relativizar a vida de idosos em nome da economia.

Ao vender-se como opção racional, o governador tucano não apenas mantém a polarização com o presidente, mas também cria um problema para Jair. Tanto o Estado quanto o município de São Paulo concentram boa parte do PIB brasileiro. Sem as grandes cidades paulistas e paulistanas e suas empresas, Bolsonaro pode espernear à vontade pela retomada das atividades no país que, ao final, vai falar sozinho.

O que está sendo, cada vez mais, parte de seu cotidiano.

Leonardo Sakamoto