PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Covid-19: Bolsonaro torce para que país nunca saiba número exato de mortos

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/04/2020 07h18

Não sabemos a quantidade de mortos produzida pelo coronavírus em território nacional e talvez nem venhamos a saber - para alívio do presidente da República.

Os 2.347 óbitos registrados até este sábado (18) são apenas um retrato atrasado e imperfeito da situação em que estamos. Se há uma fila de vítimas fatais cujas amostras esperam para serem analisadas, outras tantas nunca vão ostentar em seus atestados a causa real de suas mortes porque não houve coleta pela escassez de testes.

Pesquisadores do Observatório Covid-19 apontaram ao UOL que, na última quarta (15), quando o país registrava oficialmente 1.736 mortes, o número real estaria entre 3.800 (em uma projeção conservadora) e 15.600 (em uma mais pessimista). E o governo de Pernambuco, só para citar um exemplo fora do eixo Rio-São Paulo, ao montar uma força-tarefa para coletar sangue das pessoas mortas por problemas respiratórios, fez a letalidade dar um salto.

A situação, que traz angústia para famílias (que nunca saberão o motivo do falecimento) e desespero a gestores públicos e profissionais de saúde (que estão trabalhando às escuras para tratar pacientes e planejar o enfrentamento da crise), é um alento para Jair Bolsonaro. Pois a narrativa que tenta vender é que o grande inimigo do país não é uma pandemia assassina transmitida por contato social, mas as ações de governadores e prefeitos para reduzir a velocidade de contágio e, portanto, evitar o colapso do sistema de saúde.

Como haverá mais empregos perdidos e negócios fechados do que pessoas mortas, ele aposta na minimização da questão sanitária a fim de garantir que não comecem a lhe servir café frio antes de outubro de 2022.

Claro que seu governo apresentou com atraso e de forma insuficiente medidas para garantir alimento aos trabalhadores informais, reposição e complemento salarial aos formais e apoio a micro e pequenas empresas, mas ele convenientemente se esquece disso. Culpa apenas quarentena e não sua própria lentidão.

As hordas que realizam carreatas com buzinaços em frente a hospitais e travam a passagem de ambulâncias, pedindo o retorno à normalidade por decreto (como se o vírus respeitasse o Diário Oficial), provavelmente só se importam com mortos se eles têm seu sobrenome.

Mas a maioria racional da população consegue ponderar dados concretos na balança da vida. Se tivéssemos números de óbitos reais, dificilmente o apoio à quarentena estaria caindo (em duas semanas, foi de 76% para 68%, de acordo com o Datafolha). Por mais duro que seja o impacto econômico deste momento, é difícil ignorar o problema quando ele deixa o anonimato e ganha rosto conhecido - o instituto de sobrevivência é algo poderoso.

Bolsonaro tem pouca experiência em áreas relevantes para um presidente e não é especialista em articulação política, mas não se pode negar seu mestrado em Terceirização de Responsabilidade e o doutorado em Apropriação do Trabalho Alheio.

Conforme esta coluna adiantou no início das medidas de isolamento social, ele tentaria transferir a responsabilidade pelos impactos econômicos do isolamento social e chamar para si os frutos delas.

A quarentena em São Paulo já está causando o chamado "achatamento da curva" de contágio, ou seja, fazendo com que a pandemia se arraste por mais tempo, mas produza menos casos simultaneamente. Isso evita a superlotação de postos de saúde e hospitais, o que salva a vida não apenas dos casos graves de Covid-19, mas também de acidentados e doentes de outras moléstias - que não esperam o coronavírus passar para existir.

Porém, quanto mais ela surte efeito, reduzindo o impacto da pandemia, mais Bolsonaro irá dizer que ela não serviu para nada. Pois, para ele, isso será a prova de que a situação foi superestimada.

Em caso de aumento significativo do número de mortos, também vai tentar atacar a quarentena, dizendo que isso é a prova de que ela não funciona e que a paralisação de atividades não essenciais foi desnecessária. Irá, claro, ignorar que, exatamente por conta da tomada dessa decisão, a curva de contágio brasileira já é melhor que a dos Estados Unidos, que vive uma tragédia. Sua narrativa é ganha-ganha (para ele), sempre.

Não se pode esperar transparência de um presidente da República que, após viajar com mais de duas dezenas de infectados por coronavírus, se nega a mostrar os resultados de seus exames que, supostamente, deram negativo. Talvez pela certeza de que se tornou imunizado, segue andando em meio a multidões - como fez neste sábado, quando, novamente, chamou de covarde quem se protege do vírus. Alguém precisa informá-lo, aliás, que, apesar de improvável, o risco de reinfecção não é impossível.

Para garantir que os dados mostrem uma realidade favorável à sua narrativa não é preciso encobrir números. Basta não haver testes o suficiente neste momento - o que já é o caso. Quanto menos informação que mostre à sociedade o buraco em que ela se meteu, maior sua chance de continuar terceirizando a culpa pelo caos.

O sucesso de sua estratégia depende do ruído que consegue provocar nas redes sociais, gerando desinformação, aliado ao silêncio dos atestados de óbito. É feio jogar com os mortos. Mas é sorte do presidente que os mortos não falam.