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Bolsonaro se vitimiza e demonstra ciúmes do tratamento dado a Marielle

Jair Bolsonaro, presidente da República - Andre Borges/NurPhoto via Getty Images
Jair Bolsonaro, presidente da República Imagem: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

27/05/2020 02h55

Com muito atraso, parte dos veículos de comunicação retirou seus jornalistas da porta do Palácio do Alvorada, onde eram diariamente insultados pelo presidente da República e ameaçados por sua claque de fãs. Constatando a ausência, Jair Bolsonaro afirmou nesta terça (26): "estão se vitimizando".

Desde o início de seu mandato, ele transformou jornalistas em inimigas, difamando-as nas redes sociais, jogando suas milícias digitais sobre elas e suas famílias, atacando-as diretamente, tornando a vida delas um inferno. O uso do feminino é proposital porque seus alvos prediletos são jornalistas mulheres.

Portanto, seria apenas mais uma dose de cinismo servida pelo mandatário, se não tivesse resolvido fazer uma sessão de terapia diante dos colegas de imprensa remanescentes ali presentes.

"Quando levei a facada, eles não falaram nada. Não vi ninguém da Folha falando 'quem matou o Bolsonaro?' Pelo contrário, levo pancada o tempo todo. Se for pegar o número de horas que a Globo fez para Marielle e no meu caso, acho que dá 100 para um, mas tudo bem. A imprensa é livre, nunca tiveram um ato meu para constranger a mídia", disse.

Primeiro, é necessário lembrar a Bolsonaro que ele não morreu. Claro que parece que sim pela ausência de um líder para a articulação e o planejamento do combate a uma pandemia que, por enquanto, em um registro subdimensionado, matou 24.512 brasileiros e contaminou outros 391.222.

Segundo, o presidente prova mais uma vez que não é afeito ao hábito da leitura daquilo do qual discorda, ao contrário dos grandes líderes que são ávidos por vozes contraditórias. Pois teria visto que o repúdio ao abominável atentado que sofreu, no dia 6 de setembro, foi a tônica dos veículos de comunicação que tanto ataca.

Eu mesmo, nesta coluna, fui um dos que escreveram textos criticando duramente quem duvidava do ataque e desejava a morte do então candidato. Pois não importava que Bolsonaro tivesse dado, de forma sistemática ao longo dos anos, as piores declarações possíveis, falando de fuzilamento, elogiando torturadores e defendendo tudo o que há de pior. Um ataque a um candidato presidencial era um ataque à democracia e precisava ser apurado.

E foi isso o que aconteceu. A Polícia Federal chegou à conclusão de que Adélio Bispo agiu como um lobo solitário. Mas Bolsonaro não aceitou a conclusão - seja por paranoia, seja porque essa narrativa não lhe interessa. Afinal, precisa de uma conspiração para alimentar seus seguidores.

Terceiro, não tenha dúvidas que se ele tivesse sido morto naquele dia e as investigações não tivessem apontado o que realmente ocorreu, o assunto ocuparia o debate público até hoje. Mas sobreviveu e o responsável está atrás das grades. Já Marielle Franco foi morta em um esquema profissional que envolveu até matador de aluguel - seu vizinho, aliás. E ninguém foi condenado por isso até agora.

Há uma grande dose de vergonha alheia quando Bolsonaro, sucessivas vezes, demanda a mesma atenção concedida a uma vereadora executada. Isso vai além das estratégias de comunicação do presidente para excitar seus seguidores contra a imprensa. Há ressentimento em suas palavras, como se quisesse ser tratado como um mártir vivo - por mais contraditório que isso soe.

Quarto, o presidente prova dominar a comédia stand up ao afirmar que nunca fez nada para constranger a mídia.

Diante do desabafo presidencial, podemos constatar que, na verdade, é ele quem se vitimiza, projetando nos jornalistas que não mais estavam para ouvir insultos e agressões seu próprio diagnóstico.

Desconfio que precisasse de um abraço sincero naquele momento - não um abraço do tipo "tira uma selfie comigo para eu postar no Insta" da superficialidade da relações efêmeras. Mas estamos em uma pandemia assassina de um vírus transmitido por contato social, então isso não é recomendável. Além disso, enquanto não provar que seu terceiro teste de covid-19, realizado na Fiocruz com o pseudônimo "Paciente 05", é dele mesmo, continua sendo um risco para as pessoas à sua volta. Pois não existe anticorpo para falta de apreço pela vida.

Leonardo Sakamoto