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Em meio à pandemia, proposta quer cortar pausas de empregado de frigorífico

Paulo Whitaker
Imagem: Paulo Whitaker
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/06/2020 05h37Atualizada em 09/06/2020 13h23

Uma proposta inserida no projeto que transforma a Medida Provisória 927 em lei quer restringir as pausas a que trabalhadores que atuam em frigoríficos têm direito por estarem em ambientes de até 15º C. Se aprovada, apenas os que atuam em ambientes abaixo de 4º C ou que transportem produtos a câmaras frias terão 20 minutos de descanso a cada 1h40 trabalhada. A medida valerá mesmo depois da pandemia.

A MP 927, editada pelo governo sob a justificativa de proteger empregos durante a crise de coronavírus, deve ir à votação, nesta terça (9), na Câmara dos Deputados.

"A restrição de pausas aumenta o tempo de exposição dos trabalhadores a condições penosas, aumentando as possibilidades de adoecimento", afirma a médica Maria Maeno, uma das principais pesquisadoras em saúde dos trabalhadores do país.

"Os adoecimentos crônicos requerem frequentemente afastamentos do trabalho por mais de 15 dias e ensejam o pagamento de auxílio-doença por parte do INSS por tempo prolongado. Assim, além de trazerem sofrimento para trabalhadores e suas famílias, acarretam em prejuízos ao INSS, portanto, ao erário", avalia.

A coluna perguntou ao deputado federal Celso Maldaner (MDB-SC), relator da MP 927, a respeito da medida que não constava da proposta original enviada pelo governo federal. Sua assessoria informou que ele ainda estava trabalhando em cima da questão e retornaria assim que tivesse uma posição final.

"A proposta aumenta o risco de trabalhadores de frigoríficos de contraírem o coronavírus. Se deixam de ter esse intervalo, ficam mais vulneráveis não apenas à doença, mas a outras do trato respiratório", afirmou à coluna Mauro Menezes, advogado de sindicatos de trabalhadores da área da alimentação e membro da Comissão de Direitos Sociais do Conselho Federal da Ordem do Advogados do Brasil (OAB).

"A realidade nos frigoríficos, seja pelas condições de proximidade dos trabalhadores, seja pela dinâmica da produção, já facilita o contágio. Essa nova regra vem para agravar a exposição do trabalhador ao risco", afirma.

Uma série de unidades de frigoríficos no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina foram interditados porque se tornaram focos de transmissão de coronavírus. Por serem considerados uma atividade essencial, eles tinham autorização para operar. Para além da grande concentração de trabalhadores na linha de produção e do ambiente refrigerado que impede a renovação de ar, o Ministério Público do Trabalho aponta responsabilidade das empresas.

"Jabuti"

Críticos à proposta afirmam que ela foi incluída de forma indevida em meio à análise de uma MP que trata da proteção de empregos durante a pandemia.

Em nota, a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT) criticou o artigo 34 do Projeto de Lei de Conversão (PLV) da MP 927, que altera o artigo 253 da CLT, afirmando que ele "representa a mais recente tentativa de se introduzir matéria estranha aos propósitos originários da edição, medida incompatível com a Constituição da República". No jargão do Congresso Nacional, uma proposta que não tem relação direta com o tema de um projeto, mas é nele incluída para facilitar a tramitação é chamada de "jabuti".

De acordo com José Antonio Vieira de Freitas Filho, presidente da ANPT, se essa proposta de alteração na lei for aprovada e as pausas, restritas, "a imensa maioria dos 500 mil empregados do setor frigorífico, um dos que mais geram doenças ocupacionais no Brasil, ficaria desprotegida".

Noemia Porto, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), afirma que apesar dos frigoríficos exercerem uma atividade essencial, que é a do abastecimento alimentar, isso não pode se dar a custo da vida e da saúde dos trabalhadores.

"Nada disso tem a ver com as esperadas medidas legislativas destinadas a proteger, minimamente, o já fragmentado mercado de trabalho. Trata-se apenas do oportunismo para tentar reduzir direitos, o que é lamentável", disse à coluna.

Bancada ruralista

O artigo 253 da CLT afirma que "para os empregados que trabalham no interior das câmaras frigoríficas e para os que movimentam mercadorias do ambiente quente ou normal para o frio e vice-versa, depois de 1h40 de trabalho contínuo, será assegurado um período de 20 minutos de repouso, computado esse intervalo como de trabalho efetivo". E considera "artificialmente frio" temperaturas de 10º a 15º C dependendo da atividade.

Análise da proposta no site da Frente Parlamentar da Agropecuária destaca que ela é de "grande relevância para o agro".

"A interpretação desse artigo sobre a aplicabilidade do repouso térmico é controversa, tanto que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) editou a súmula 438, por meio da qual estende, por aplicação analógica, o intervalo para o repouso térmico aos trabalhadores nas atividades desempenhadas em ambientes artificialmente frios, mesmo sem entrada e saída, como estabelece a lei", diz.

A avaliação da bancada ruralista aponta que "trabalho em câmaras frigoríficas não é análogo ao trabalho em outros ambientes artificialmente frios" e que isso acontece por falta de parâmetros objetivos que definam o que é trabalho em câmara frigorífica e movimentação de mercadoria. E diz que a mudança "trará segurança jurídica quanto ao direito de pausa e da percepção do adicional de insalubridade, importando assim, na redução do custo trabalho e no aumento da produtividade".

O advogado de sindicatos de trabalhadores da área da alimentação, Mauro Menezes, discorda. "Dizem que a matéria vem para reduzir insegurança jurídica, mas o TST já pacificou a questão na súmula 438", explica. "A mudança é que traz insegurança às relações de trabalho." E afirma que a alteração é inconstitucional, tanto por ser um "jabuti" em uma MP quanto por colocar a saúde de empregados e risco.

Doenças físicas e psíquicas

De acordo com a pesquisadora Maria Maeno, os trabalhadores de frigoríficos estão entre os que se destacam pelo número de acidentes e doenças relacionadas à atividade - da exigência de execução de movimentos repetitivos, passando por esforço físico e pelo trabalho em pé a posturas desconfortáveis por tempo prolongado.

Isso aliado a ambientes de baixa temperatura e desconforto térmico leva a desgaste do trabalhador, com doenças físicas e psíquicas.

"As pausas permitem que haja uma diminuição dessas condições penosas de trabalho", afirma. "A restrição de pausas para atender às necessidades psicofisiológicas, somente para temperaturas abaixo de 4º C, significará que a grande maioria dos trabalhadores de frigoríficos será excluída da realização das pausas preconizadas na Norma Regulamentadora 36, que foi publicada após discussão entre governo, trabalhadores e empregadores, em comum acordo."

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Atualização: O relator retirou a proposta do parecer que apresentou, no final da manhã desta terça (9), à Câmara dos Deputados.

Leonardo Sakamoto