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Leonardo Sakamoto

Após perder Batalha dos 100 mil Mortos, capitão Bolsonaro terceiriza culpa

Jair Bolsonaro (Foto: reprodução) - Reprodução / Internet
Jair Bolsonaro (Foto: reprodução) Imagem: Reprodução / Internet
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/08/2020 17h06

Impressiona a covardia do presidente da República diante de sua derrota na Batalha das 100 mil Mortes por covid-19. O termo é forte, mas foi ele quem o trouxe para o debate público quando o usou para designar os brasileiros que, atendendo o alerta de médicos e cientistas, ficaram em casa para proteger a si mesmo e aos outros.

Apenas neste domingo, ele se manifestou nas redes sociais, afirmando que "lamentamos cada morte, seja qual for a sua causa, como a dos três bravos policiais militares executados em São Paulo". Sim, isso foi tudo o que ele tinha a dizer sobre os 100 mil. Nem conseguiu produzir uma frase inteira sobre os óbitos da covid, misturando duas tragédias de causas diferentes. Uma que ele tem responsabilidade, outra que não.

Neste sábado (8), quando essa montanha de corpos foi oficialmente registrada, ele se negou a falar sobre o que passou, como se um presidente da República não tivesse nada a explicar sobre a mais importante guerra travada em território brasileiro de nosso tempo. Ainda mais um presidente que age, desde o começo, como se estivesse liderando a invasão inimiga. Se tivesse sido um militar, isso seria vergonhoso.

Em uma democracia, haveria uma coletiva à imprensa em que o próprio governante responderia às perguntas, defendendo seu plano com argumentos racionais e sem ataques rasteiros. Por aqui, temos déficit de racionalidade, de planejamento, de democracia.

De resto, ele gastou mais espaço das postagens criticando o lockdown, brigando com a cobertura da TV Globo e defendendo a hidroxicloroquina do que fornecendo informações úteis para a população sobre o que podemos esperar de agora em diante. De forma cínica, disse que "desinformação mata".

Ao longo do sábado, milícias digitais do presidente tentaram transferir a responsabilidade pelas mortes a prefeitos e governadores, mentindo novamente sobre uma decisão do Supremo Tribunal Federal que teria tirado de Bolsonaro o comando político da crise. Na verdade, o STF disse que Estados e municípios também devem atuar na tomada de decisões, não que o governo federal não seja responsável.

Além disso, a corte não disse que Bolsonaro deveria se furtar de liderar o país na articulação de um plano de enfrentamento ao problema que envolvesse diferentes atores da federação e os Três Poderes. Tampouco afirmou que ele poderia atrasar os repasses de recursos para o combate à pandemia, como identificou o Tribunal de Contas da União (TCU). Ou que ele poderia deixar o vírus entrar livremente através de aeroportos internacionais abertos, enquanto o mundo fechava fronteiras.

Bolsonaro preferiu menosprezar o inimigo e, à medida que o Brasil ia perdendo terreno para o coronavírus, fechou-se em uma narrativa negacionista. Forçou os trabalhadores a voltarem ao serviço de forma a reduzir a depressão econômica da pandemia, de olho na viabilidade de seu governo e em sua reeleição, arriscando vidas. E começou a fazer propaganda de um remédio (com tanta eficácia quanto beber água) cujos efeitos colaterais também trazem óbitos que, mais tarde, entrarão em seu currículo.

O Brasil transformou a morte em massa em rotina. Tanto que a frase do presidente "a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo" tem sido repetida por muitos, de empresários a motoristas de táxis, na normalização do morticínio.

Espero que ele sinta orgulho disso, pois será lembrado como o seu legado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto