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Leonardo Sakamoto

No Brasil, 9% não querem tomar vacina contra covid; 7% creem na Terra plana

Australianos iniciam teste para vacina contra coronavírus - Divulgação
Australianos iniciam teste para vacina contra coronavírus Imagem: Divulgação
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/08/2020 10h41Atualizada em 16/08/2020 23h07

Nove entre cada dez brasileiros querem receber a vacina contra a covid-19 assim que ela estiver disponível. O que me interessa, contudo, é entender o que passa pela cabeça dos 9% que não a tomariam, de acordo com pesquisa Datafolha.

Se a única vacina que estivesse em curso de ser viabilizada fosse o produto russo, que peca por uma profunda falta de transparência sobre os dados das primeiras etapas de teste e, portanto, dos efeitos colaterais e toxicidade, vá lá.

Considerando que há várias outras que seguem os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS), imagina-se que as razões sejam outras.

Pode ser que uma parte dos 9%, por ter contraído a doença, acredite que está imunizada, no que pese médicos e cientistas apontarem que um resultado positivo não significa a existência de anticorpos eficazes.

Há, claro, simpatizantes do movimento antivacina no Brasil, que acreditam que elas são um mecanismo das grandes corporações para dominar nossas mentes (posição costumeiramente encontrada à direita) ou arrancar dinheiro do Estado, oferecendo produtos desnecessários (visão mais comum à esquerda).

Uma coisa é desconfiar da indústria farmacêutica —que já provou que merece isso. Outra é ser contra um processo de proteção coletiva que precisa de uma alta taxa de adesão para funcionar, considerando que a própria eficácia de uma vacina não será de 100%.

Intriga o fato que os números da pesquisa são semelhantes aos de outro levantamento do Datafolha, de julho do ano passado, que perguntou aos brasileiros sobre o formato do planeta.

Enquanto 90% declararam que a Terra é redonda, 7% dos entrevistados afirmam que ela é plana. Há uma relação direta com a escolaridade, mas que não é exclusiva. Enquanto 10% dos que terminaram apenas o ensino fundamental acreditam que o mundo é uma panqueca, a taxa é de 6% para os que concluíram o ensino médio e 3% o superior.

Não estou chamando quem é contra a vacina de terraplanista, apenas destacando que ambos os levantamentos trazem um alerta sobre a descrença na ciência. O que pode trazer graves consequências para a saúde das pessoas.

Não se deve colocar a ciência em um altar acrítico, uma vez que ela é feita por seres humanos e, portanto, aberta a falhas. A verdadeira ciência, inclusive, questiona a si mesma o tempo todo, e por isso evolui. Isso sem contar que ciência de fato caminha sozinha para longe da comparação com a religião.

Mas quando estamos tratando de um esforço que envolve milhares de pessoas, realizado com respeito ao método científico, com batalhões de testes, publicização de dados, debate entre os pares, discussão global de resultados, em um dos maiores esforços da história humana para encontrar um produto que ajude no combate à pandemia, a negativa à vacina deveria ser menor.

Os cantos mais sombrios de nossa alma sempre buscaram juntar cacos de informações e dar sentido a um ocorrido quando não conseguimos ter acesso à visão geral. Imagine que chato seria um mundo em que as pessoas se dedicassem a aprender ciência e história a fim de compreender como chegamos até o aqui e o agora, garantindo uma boa parte dessa visão geral.

Conforta saber, contudo, que o sucesso das campanhas de vacinação realizadas pelo nosso Sistema Único de Saúde (SUS) garantiram a credibilidade para a imunização em massa por aqui. Nesse sentido, estamos melhores que outras partes do mundo. Por exemplo, de acordo com matéria da Folha de S.Paulo, 27% dos norte-americanos afirmaram que certamente ou provavelmente não tomariam a vacina.

Por curiosidade, nos Estados Unidos também 7% acreditam que a Terra seja plana ou têm dúvidas quanto à esfericidade do planeta.

Considerando que o presidente da República Jair Bolsonaro empurra cloroquina, um produto sem eficácia comprovada e cheio de efeitos colaterais, goela abaixo dos brasileiros porque tem fé no medicamento; afirma que não acredita nas imagens de satélite e nos vídeos de queimadas na Amazônia porque que floresta úmida não queima; crava em pleno Memorial do Holocausto, em Israel, que o nazismo era um movimento de esquerda; e que vê o aquecimento global uma grande bobagem, estamos até no lucro com esses 9%.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto