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Leonardo Sakamoto

Nobel da Paz para o combate à fome é chance de lembrar quem causa essa fome

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/10/2020 10h59

O Prêmio Nobel da Paz de 2020 foi para o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. O que abre a oportunidade de discutirmos as causas e os causadores dessa fome.

O comitê norueguês do prêmio justificou a escolha, nesta sexta, dizendo que ele se deve aos esforços do programa para combater a fome, melhorar as condições para a paz em áreas afetadas por conflitos e agir como força motriz para prevenir o uso da fome como uma arma de guerra.

O prêmio foi um recado claro ao governo Donald Trump, nos Estados Unidos, que vem ameaçando cortar recursos de agências das Nações Unidas que não se alinham à sua visão geopolítica, e a outros governos que veem o demônio encarnado no multilateralismo. Ou seja, em problemas serem resolvidos pela comunidade das nações ao invés do "cada um por si e o seu deus por todos".

O programa, ao contrário da maioria do sistema ONU, que tem contribuições regulares e obrigatórias dos países, funciona com doações voluntárias - o que torna tudo muito mais difícil ainda mais em um momento em que a pandemia gerou crise econômica global e dificultou o acesso a alimentos. Antes do coronavírus, em 2019, o programa atendeu 100 milhões de pessoas em 88 países.

O Nobel da Paz dado a uma organização que combate a fome retoma a discussão sobre as causas da fome.

Fome é um sintoma, não uma doença em si. Em grande escala, fome é consequência de conflitos armados (muitas vezes causados pelas grandes nações) que expulsam comunidades de suas terras. E também da pornográfica desigualdade social - que impede comunidades de terem acesso a terras para produzirem para si mesmas ou de serem beneficiadas com transferência de renda em locais de riqueza concentrada.

No Brasil, chegamos a sair do Mapa da Fome das Nações Unidas por conta de programas de renda mínima, como o Bolsa Família, mas acabamos por voltar devido à falta de ações para proteger os mais vulneráveis durante a crise econômica e a pandemia. A situação só não é pior hoje graças ao Congresso Nacional que não deixou o governo Bolsonaro aprovar um auxílio emergencial de valor tão baixo como os R$ 200 propostos originalmente por ele.

Historicamente, a ação do Programa Alimentar Mundial é bancada com doações do excedente de produção dos países. Há uma discussão para que isso seja convertido em dinheiro, com todos os contras (desvios...) e prós (a doação de alimentos in natura, quando em grande quantidade, pode quebrar a produção em alguns locais pobres, perpetuando a pobreza).

Com isso, o PAM está trabalhando para ter uma ação de longo prazo, que é fortalecer seu papel de apoiador da produção do local e da reconstrução da produção nos lugares afetados. E, de curto e médio prazos, mantendo os programas emergenciais. Mas ele só pode fazer isso se Estados Unidos e outros países ricos começarem a doar mais grana e menos alimentos.

No Brasil, por mais que tenhamos programas de distribuição de renda, a fome continuará sendo uma realidade incômoda por passarmos por cima das causas do problema.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, em 19 de julho do ano passado, que "falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira" em café da manhã com correspondentes internacionais. "Passa-se mal, não come bem. Aí, eu concordo. Agora, passar fome, não." De acordo com ele, "você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo".

Mais tarde, Bolsonaro, diante da repercussão negativa, se corrigiu. "É um país aqui que a gente não sabe por que uma pequena parte passa fome e outros passam mal ainda". E disse que isso "é inaceitável em um país rico como o nosso, com terras agricultáveis, água em abundância".

Mas é exatamente a desigualdade no acesso à terra e à água que contribui para a persistência da fome. Um dos principais exemplos é a falta de demarcação de terras para a população indígena no Mato Grosso do Sul - demarcação que ele já disse que não vai fazer. Com isso, crianças continuam indo para a cama com fome nessas comunidades.

"Se nós tivéssemos terra e a liberdade de buscar o sustento de nossa própria terra, a gente não dependeria de programas de governo. O principal problema é que a terra não está sendo demarcada e estamos sendo impedidos de plantar nas retomadas. Enquanto isso, há gente usufruindo das nossas terras, lucrando com as nossas terras, destruindo mata, destruindo rio, usando veneno para plantar soja", explicou à coluna um dos representantes do conselho Aty Guasu (Grande Assembleia Guarani e Kaiowá), principal organização desse povo.

O Nobel entregue ao Programa Alimentar Mundial é uma boa oportunidade para nos lembrar sobre a razão da fome, como já dito. Há muitos que querem combatê-la, mas nem todos são favoráveis a atuar contra as suas causas. Ganha um doce quem adivinhar o porquê.

Nada como uma citação atribuída a um gigante, o saudoso Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres, para traduzir o que isso significa: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista".