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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro, Doria, Lula? Não, a grande eleitora em SP pode ser a Abstenção

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/11/2020 20h39Atualizada em 26/11/2020 22h05

A distância entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), que era de 13 pontos na semana passada, caiu para sete na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (26): 47% a 40%, respectivamente, nos votos totais. No limite da margem de erro, de três pontos, estariam com 44% e 43%.

Por mais que tenha uma folga ainda confortável, o prefeito precisa que os paulistanos acreditem quando ele diz que a pandemia não está voltando a crescer em São Paulo - apesar dos números indicando o oposto. E, com isso, saiam de casa para votar no domingo. Principalmente, os mais velhos, que pertencem ao grupo de risco para a covid. Entre quem tem mais de 60 anos, Covas ostenta 61%, enquanto Boulos fica com 28%.

Já o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) registra 61% nos eleitores entre 16 e 24 anos e Covas, 27%. Os mais jovens representam 12% da amostra do Datafolha, enquanto os mais velhos, 23%.

Em todas as entrevistas e sabatinas que vem concedendo no segundo turno, Covas tem rebatido jornalistas que apontam um aumento no número de internações em UTIs por covid-19 em hospitais particulares e públicos do município.

"Não há necessidade de retroceder", repetiu o prefeito, em sabatina do UOL e da Folha de S.Paulo, nesta quinta, com relação ao processo de reabertura da quarentena. Garantindo que os dados mostram "estabilidade da doença", disse que não faria "discurso alarmista em véspera eleitoral", nem afirmaria que a pandemia acabou.

Vítima da abstenção no primeiro turno da eleição, ele precisa convencer pessoas mais velhas a saírem de casa para depositarem seu voto a fim de não ter outra surpresa quando as urnas forem apuradas.

O Datafolha previa que ele teria 37% dos votos válidos. E que Boulos ficaria com 17%. Acabou registrando 32,8%, enquanto seu adversário contou com 20,2%. A abstenção, no primeiro turno da eleição deste ano, foi de 29,3%, em São Paulo, frente a 21,84%, em 2016.

Devido à alta nos números da covid na capital e no interior, questiona-se o porquê do prefeito e do governador estarem esperando até a próxima segunda (30) para tomarem uma decisão sobre o endurecimento da quarentena. Nesse dia, está programada uma revisão do Plano São Paulo, que classifica as regiões do Estado em fases quanto a níveis de abertura. Mas uma decisão poderia ser tomada antes.

De acordo com reportagem do UOL, o coordenador executivo do Centro de Contingência ao Coronavírus em São Paulo, João Gabbardo, afirmou que foi recomendado a Doria a adoção de medidas mais restritivas. Ele decidiu esperar.

Um dos motivos pode ser o fato de que seis dos sete municípios em que o PSDB disputa segundo turno no estado estão na fase verde, ou seja, a segunda menos restritiva, e teriam que adotar critérios mais rígidos, principalmente no lazer. O que não seria muito popular neste momento. Vale repetir, a eleição é no dia 29.

Não deixa de ser irônico que tanto o prefeito e governador, que brigaram para se contrapor ao presidente Jair Bolsonaro, mostrando que respeitavam a ciência, postergarem uma medida sanitária que pode salvar vidas em meio a uma disputa eleitoral.

E mais irônico ainda que o posto de principal eleitor em São Paulo não fique com o presidente Bolsonaro, o governador Doria e o ex-presidente Lula, mas com quem ninguém imaginava. Ela, a Abstenção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL