PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Periferia, Among us e covid: a reta final da campanha de Boulos

28 out. 2020 - Guilherme Boulos (Psol) visita a comunidade Vietnã, na rua Franklin Magalhães, na Vila Santa Catarina, zona sul da cidade de São Paulo - ALICE VERGUEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO
28 out. 2020 - Guilherme Boulos (Psol) visita a comunidade Vietnã, na rua Franklin Magalhães, na Vila Santa Catarina, zona sul da cidade de São Paulo Imagem: ALICE VERGUEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/11/2020 12h27

Guilherme Boulos (PSOL) discutia as perguntas que faria para Bruno Covas (PSDB) no debate, na noite de sexta (27), na TV Globo, quando uma das pessoas de sua equipe baixou na internet o resultado positivo para covid-19 do candidato do PSOL. Terá que ficar em casa até o domingo de eleição —um dos dias mais importantes de sua vida— e além, em isolamento.

O debate, cancelado pela emissora, era importante para que Boulos se fizesse conhecido entre o público mais pobre do município, da mesma forma que era fundamental para que Covas pedisse à parcela de seus eleitores mais velhos não deixarem de votar no domingo por medo da covid —como ocorreu no primeiro turno, prejudicando-o.

Neste sábado (28), enquanto sua vice, Luiza Erundina, percorre a cidade em carreata com seu "erundinamóvel", para se proteger da covid, junto com Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PC do B), adversários de primeiro turno, Boulos fará atividades pela internet. Logo no café da manhã, enfrentou ataques de bolsonaristas, que o chamaram de genocida por ter feito atividades de campanha após uma de suas aliadas ter contraído covid.

Tripulantes, impostores e a eleição do Among Us

Na reta final da campanha, ele disputou uma partida de Among Us com Felipe Neto (40,6 milhões de inscritos no YouTube), que teve quase 3,5 milhões de visualizações. No jogo on-line, tripulantes tentam identificar impostores e impostores tentam eliminar tripulantes.

Você pode não gostar disso, mas, acredite, seus filhos gostam. E foi exatamente a aposta em uma campanha forte na rede, com linguagem despojada, que o catapultou para o segundo turno e é sua esperança no domingo. Boulos vence Covas por 61% a 27% entre jovens de 16 a 24 anos, segundo o Datafolha.

O Boulos digital da campanha presidencial de 2018 é diferente do candidato à prefeitura em 2020. Para um de seus assessores, "a rede foi criativa porque viu nele um candidato disposto a entrar de cabeça". Isso gerou reconhecimento, inclusive da direita, que percebeu que seus adversários aprenderam a fazer política on-line. Mas também produziu incômodos em uma parte da esquerda, que reclamou da "tiktokização" da campanha.

Para seus assessores, o foco no digital foi a saída lógica diante de uma campanha que tinha 17 segundos de propaganda na TV no primeiro turno. Mas ao passar para a fase final da eleição e receber cinco minutos, quem morava em uma quitinete teve que mobiliar uma mansão com o que tinha à mão.

"Ao contrário do Bruno, que desde o início teve esse latifúndio de tempo, nós não tínhamos perna, equipe, nem material produzido para tanto", conta outro dos membros da campanha.

Candidato teve que empurrar seu Celta quando o câmbio quebrou

O problema com a TV não foi o único. Boulos usou dois carros: primeiro, o seu Celta 1.0, prata, ano 2010, que quebrou duas vezes. Em uma delas, quase perdeu uma sabatina. Em outra, o câmbio foi pra glória e ele teve que descer e empurrar.

Também houve uma Kombi alugada —que quebrou ainda mais que o Celta, e foi deixada de lado.

Com a agenda intensificada no segundo turno, dormiu pouco nos últimos dias. Como tinha que vencer a sempre congestionada Estrada do Campo Limpo, acordava uma ou duas horas antes para chegar em outros extremos de São Paulo, Principal ligação da região sudoeste com o resto da cidade, a via conta com uma faixa para carros e outra para ônibus —o que leva a discussões acaloradas sobre qual deve ser a prioridade no transporte urbano. Um microcosmo das contradições da metrópole.

O voto dos vizinhos e o "pesque-pague" da Tia Maria

Boulos mora a algumas quadras da casa onde cresci e onde vivem meus pais, então passei algumas vezes por lá ao longo da campanha. As casas da rua onde vive, na várzea de um dos córregos da bacia do rio Pirajussara, foi recebendo cartazes de apoio na reta final.

No Campo Limpo, Bolsonaro teve mais de 53% dos votos válidos no segundo turno de 2018. Hoje, há vizinhos do psolista que eram bolsonaristas e se tornaram boulistas. No primeiro turno, ele teve 22,8% dos votos, frente a 30,4% de Covas.

Uma das estratégias de Boulos, neste segundo turno, foi apostar na periferia —onde, apesar de atuar como coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), é menos conhecido.

Sua campanha defende que somando as votações que PSOL, PT e PC do B, Rede, além de parte do PSB, tiveram no primeiro turno, a esquerda pode retomar o "cinturão periférico" que historicamente lhe garantiu votações expressivas. De 2000 a 2012, esse campo político registrou um piso de cerca de 30% em São Paulo.

Nesse contexto, uma das locações escolhidas para as suas propagandas foi um pitoresco restaurante dentro de uma favela no Jardim Ipê, também no Campo Limpo, onde você "pesca" seu peixe em um tanque, que depois é preparado pela proprietária, a tia Maria.

De lá, há uma vista privilegiada para um mar de casas construídas pelos próprios moradores, sem reboco ou acabamento, que são a paisagem dominante de São Paulo —e não a avenida Paulista ou o parque do Ibirapuera.

"Prazer, meu nome é Boulos" e a torcida pela abstenção

Ironicamente, ao mesmo tempo em que tentava mostrar a essa parcela da população suas pautas para o acesso à moradia em suas propagandas de TV, sua campanha gastou uma boa parte do tempo afirmando que não era verdade que ele ordenava ocupações de residências de famílias.

O que nos leva novamente ao debate da Globo. Em comparação com a disputa no Rio de Janeiro, onde o dedo no olho e a gritaria se tornaram ações cotidianas, São Paulo segue relativamente civilizada no segundo turno. Ninguém inventou mentiras sobre pedofilia, nem sobre "kit gay", por exemplo.

Para a campanha, era o momento de mostrar aos vizinhos das outras ruas do seu bairro e dos outros bairros da periferia quem ele é e convencer que não merece a pecha de "radical". Vai ter que tentar fazer isso pela rede e mobilizando a militância, tentando furar as bolhas e as câmaras de eco das redes sociais. E torcer para que o público mais velho faça como ele e fique em casa neste domingo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL