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Diogo Schelp

Campanha de Covas entendeu que precisava vender esperança, como Boulos

Campanha do prefeito percebeu que, além de martelar na experiência de Covas, deveria usar estratégia do rival do PSOL - Zanone Fraissat/Folhapress
Campanha do prefeito percebeu que, além de martelar na experiência de Covas, deveria usar estratégia do rival do PSOL Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

28/11/2020 12h00

Diante da mesa de canapés e lanches, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) se cumprimentaram.
-- Estou vendo o Bruno mais do que minha esposa -- brincou Boulos.
-- Enquanto não estiver sonhando comigo, está ótimo -- devolveu Covas, rindo.
O diálogo entre os dois candidatos que se enfrentam no segundo turno da eleição para a prefeitura de São Paulo ocorreu na última segunda-feira (23), no estúdio da TV Cultura, antes de serem sabatinados no programa Roda Viva.

Começava ali a corrida final, a contagem regressiva de seis dias para a votação de domingo (29), quando os paulistanos escolherão quem comandará a cidade pelos próximos quatro anos.

Nesses dias, além dos encontros em sabatinas e debates, Covas e Boulos ganharam motivos adicionais para povoarem os sonhos — ou pesadelos — um do outro: a disputa se tornou mais acirrada, com Boulos diminuindo a vantagem de Covas nas pesquisas, e a temperatura da campanha elevou-se em alguns graus, com ataques mais intensos de ambas as partes.

O clima de trégua entre os dois só voltou a dar as caras quando Boulos foi diagnosticado com covid-19 na tarde de ontem (sexta-feira, 27) e o tucano lhe desejou "pronta recuperação".

Nos bastidores, pessoas próximas de Covas veem esse segundo turno como um embate entre a experiência e a esperança.

A experiência é reivindicada pelo tucano, que sempre teve a política por profissão e que já desempenhou diversos cargos públicos. Boulos, por sua vez, transmite, segundo avaliação dos próprios estrategistas da campanha do PSDB, a imagem de esperança e a promessa da realização de sonhos.

Campanha de Covas ligou alerta para o mote "esperança"

"Boulos fala bonito e de maneira simples sobre temas complexos", diz um assessor de Covas. "Covas é o oposto: ele está há tanto tempo na política que sabe das dificuldades, da dura realidade dos fatos, e que não pode sair por aí dizendo qualquer coisa de maneira irresponsável."

O crescimento de Boulos nas pesquisas, na avaliação de integrantes da campanha do tucano, é reflexo do fato de que, em eleições, as pessoas compram esperança, não a dura realidade.

A discussão nos bastidores da equipe de Covas nessa reta final, portanto, era como conseguir atribuir para o prefeito esse papel de provedor de esperança. Esse esforço se verificou, por exemplo, no último dia de propaganda eleitoral na TV do candidato do PSDB, que falou de realizações, mas também procurou imprimir um tom de motivação e do sonho da "igualdade de oportunidades".

A preocupação com o crescimento do adversário do PSOL nas pesquisas manifestou-se com intensidades diferentes nos núcleos mais centrais ou mais distantes da campanha de Covas.

Militância cobrou postura mais dura

No núcleo mais próximo, predominou o reconhecimento da dificuldade de conter o avanço de um adversário que tem o apelo da mudança. Não houve, porém, desespero. A preocupação maior é com a possibilidade de que a abstenção na votação deste domingo seja alta, em especial entre eleitores mais velhos (muitos deles eleitores de Covas, segundo as pesquisas), que temem a contaminação por covid-19 e por isso talvez prefiram ficar em casa.

A aflição e a angústia são mais palpáveis nos núcleos mais distantes das decisões estratégicas da campanha tucana. São os militantes que estão nas ruas ou nas redes sociais e que nos últimos dias questionaram os coordenadores, pedindo uma postura mais dura de Covas contra Boulos na reta final.

Até mais ver

Isso talvez viesse a ocorrer no último debate entre os dois candidatos, pela Rede Globo. Mas Boulos foi diagnosticado com covid-19 (Covas já teve a doença) e o enfrentamento na TV teve de ser cancelado.

Com isso, o psolista, de maneira involuntária, encerrou mais cedo essa fase de sua vida em que ele vê Bruno Covas com mais frequência do que a própria mulher.

E o tucano, por sua vez, conta as horas para o momento em que não precisará mais se preocupar com os sonhos de Guilherme Boulos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL