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Leonardo Sakamoto

Há um ano, Guedes disse que covid custaria só R$ 5 bi. Já foram R$ 528 bi

Reuters
Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/03/2021 23h38

"Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Por que já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra."

A declaração foi dada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista à revista Veja publicada em 13 de março de 2020, ou seja, há exato um ano. O lembrete da efeméride foi do sempre atento Jeff Nascimento.

Já naquele momento, a frase espantou cientistas e médicos pela falta de conexão com a realidade. Tanto pelo valor necessário para enfrentar uma pandemia assassina global quanto pela afirmação de que a Saúde já conta com bastante verba. Vale lembrar que após a emenda do teto de gastos impedir o aumento de despesas acima da inflação, o que já era precário ficou ainda mais.

De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, em 2020, a maior parte com o pagamento do auxílio emergencial (R$ 293,11 bilhões). Em 2021, já foram pagos outros R$ 4,3 bilhões.

E estamos longe de um valor final. O Congresso Nacional aprovou R$ 44 bilhões para a renovação do auxílio emergencial, valor que é visto como baixo para garantir um mínimo de qualidade de vida às famílias que estão passando necessidade na segunda onda da covid. Enquanto as mensalidades do benefício foram de R$ 600 e, depois, R$ 300, no ano passado, agora elas serão, em média, de R$ 250 - menos de 40% do total necessário para comprar uma cesta básica com alimentos frescos na capital paulista segundo o Dieese.

Ou seja, a discrepância entre o chute do ministro (R$ 5 bi) com o que foi gasto até agora (R$ 528,3 bilhões) pode ser comparada ao presidente da República ter chamado a pandemia de "gripezinha" e "resfriadinho" e agora termos 277 mil mortos, com 52 dias seguidos de média móvel de óbitos acima de mil.

Guedes gosta de previsões com o número 5. Também em março do ano passado, ele disse que o dólar poderia chegar a R$ 5 "se fizer muita besteira". Hoje, o dólar está a R$ 5,56.

E diante do risco de manifestações contra o governo, alertou, em novembro de 2019, que ninguém se assustasse com um novo AI-5, ato da ditadura que permitiu fechar o Congresso e descer o cacete geral em 1968.

No dia 26 de janeiro, afirmou que o Brasil pode crescer 5% este ano. Não apresentou dados que comprovassem isso, o que faz dela uma declaração lastreada apenas na força do querer.

"Se deixarmos de lado essa psicologia derrotista, esse descredenciando a democracia, essa vontade de ganhar de qualquer forma o poder político, eu acho que podemos de novo surpreender. O Brasil pode crescer 5%", disse. "Se trabalharmos em vez de jogarmos pedra um no outro, vamos crescer mais", completou.

Lembremos que o último a descredenciar a democracia foi um deputado bolsonarista da base do governo que disse que daria uma surra de gato morto na cara de um ministro do STF após o almoço. E que seu chefe, o presidente da República, é quem mais dá pedrada nos brasileiros. E é bom de mira. O resultado disso são os tais 277 mil mortos em muito por conta de sua omissão.

Incorporada ao Ministério da Economia, por pedido de Paulo Guedes, em 2019, a área de Planejamento do governo parece que não está funcionando muito bem.