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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao liberar igrejas, Nunes Marques ajuda fiéis a encontrarem seu criador 

Nelson Jr / STF
Imagem: Nelson Jr / STF
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/04/2021 20h14

O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, resolveu, neste Sábado de Aleluia, ajudar fiéis a se encontrarem com o Criador. Pessoalmente e antes da hora.

Atendendo a um pedido da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), ele liberou a realização presencial de missas e cultos em todo o país. Estados e municípios não podem mais proibir a abertura de igrejas e templos sob a justificativa de reduzir o risco de contágio de covid-19. Mesmo que estejamos em uma escalada de mortes e que reuniões em locais fechados sejam um dos vetores de transmissão.

O Brasil ultrapassou, neste sábado (3), 330 mil óbitos pela doença.

A decisão foi celebrada nas redes sociais por Jair Bolsonaro, que indicou Nunes Marques a uma vaga no STF. O presidente da República prefere ver o diabo do que encarar uma quarentena ou um lockdown e vem movendo o céu e o inferno contra medidas de isolamento social.

Parte das igrejas quer permanecer com atividades presenciais, mesmo em meio aos recordes de mortes por covid-19, para mostrar que a teologia que venderam antes da pandemia não é uma ilusão e, portanto, quem vier a seus cultos estará seguro e não tem com o que se preocupar. Com isso, coloca pessoas em risco.

"Há igrejas que prometeram, por muito tempo, que os seus membros iam ser protegidos, que há uma benção especial de Deus para os crentes, que aquele que serve a Deus tem uma certa 'imunidade' na vida, que Deus é salvamento, libertação e grandes milagres. Diante de uma pandemia como essa, admitir que as pessoas estão vulneráveis e podem morrer seria negar todo o discurso de vários anos."

A análise havia sido feita à coluna pelo pastor Ricardo Gondim, presidente da Igreja Betesda, considerado referência entre os teólogos evangélicos. Segundo ele, para manter a lógica que pregavam antes da pandemia, essas igrejas precisam continuar prometendo um grande milagre e uma grande benção. Mesmo que as pessoas estejam em risco.

O dilema é semelhante ao da peste na Europa na Idade Média. Acreditava-se que os mosteiros eram santuários de proteção, mas eles se tornaram vetores de disseminação.

Ao mesmo tempo, muitas igrejas estão sob grande estresse financeiro após mais de um ano de pandemia, principalmente as pequenas denominações religiosas.

O problema é que, enquanto os grandes templos contam com pé direito alto, grandes janelas e espaço suficiente para distanciamento social e as medidas sanitárias estipuladas por Nunes Marques, a maioria dos locais de culto no Brasil são pequenos, fechados e com potencial de se tornarem covidários.

"Reconheço que o momento é de cautela, ante o contexto pandêmico que vivenciamos. Ainda assim, e justamente por vivermos em momentos tão difíceis, mais se faz necessário reconhecer a essencialidade da atividade religiosa, responsável, entre outras funções, por conferir acolhimento e conforto espiritual", escreveu o ministro.

Concordo que a participação em encontros religiosos presenciais seria uma maneira de pessoas encontrarem algum conforto e reduzirem o sofrimento em meio à prolongada pandemia. Contudo, na semana em que o país chegou a quase 4 mil óbitos num único dia por covid, a decisão do STF não é a celebração da vida presente na Páscoa, mas um convite à morte. É o sacrifício por nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL