PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por evitar mortes, CPI da Pandemia é atividade essencial e deve começar já

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

14/04/2021 09h44

Tudo aquilo que pode salvar vidas enquanto a covid-19 mata, em média, mais de 3 mil brasileiros por dia deve ser considerado atividade essencial e ter seu funcionamento liberado. A CPI da Pandemia enquadra-se nesse rol, pois pode frear a sabotagem do governo federal no combate à doença. Precisa, portanto, começar já.

A tropa de choque de Jair Bolsonaro no Senado Federal, contudo, tem pressionado para que os trabalhos da comissão esperem a pandemia passar, quando a emergência sanitária for apenas uma lembrança ruim e as investigações não puderem mais evitar a morte de ninguém.

Pois a prioridade da CPI não é apontar culpados (até porque o principal deles está alimentando emas no Palácio do Alvorada com cloroquina), mas salvar a maior quantidade de vidas possível.

O senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder do governo na casa, defendeu que a CPI não tenha trabalhos presenciais enquanto todos os participantes não forem vacinados. Como Jair Bolsonaro sabotou a encomenda de vacinas no ano passado, isso pode vir a acontecer apenas no final do ano.

A posição dele é compartilhada por colegas governistas, que defenderam prorrogar o início dos trabalhos para agosto, outubro, novembro. Na prática, querem impor um lockdown, mas apenas para a CPI.

A tropa é respaldada pelas redes sociais fiéis a Jair, que alertam para o risco de contaminação trazido pelas audiências. Curiosamente, são os mesmos grupos que, dias atrás, defendiam que aglomerações de centenas de pessoas em igrejas e templos deveriam ser liberadas.

Não deixa de ser um exemplo de cinismo, portanto, que bolsonaristas afirmem que a comissão coloque em risco o distanciamento social, medida sistematicamente atacada por bolsonaristas.

É completamente possível que a CPI comece de forma semipresencial, como apontou o autor de seu requerimento, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Com medidas de distanciamento social e cuidados sanitários, o presidente e o relator e alguns servidores públicos poderiam acompanhar os depoimentos dos convidados presencialmente, enquanto outros membros da comissão participariam de forma remota, virtual.

Graças à pressão dos governistas, a CPI - que havia sido solicitada para investigar as ações e omissões do governo federal na pandemia - também analisará os repasses de recursos federais a Estados e municípios. Isso ajuda a tirar o foco, mas ainda assim Bolsonaro tem muito o que temer - do asfixiamento coletivo de cidadãos de Manaus por conta do atraso no envio de oxigênio, passando pela sabotagem na compra de vacinas até os contratos para produção e aquisição de remédios sem eficácia contra a doença.

O presidente que tanto defende o funcionamento de atividades essenciais neste momento ganha mais um item para a sua longa lista de hipocrisia ao negar que o Senado Federal permita melhorar o enfrentamento à pandemia.

Registramos, nesta terça (13), 358.425 óbitos por covid-19. Estimativas pessimistas da Universidade de Washington apontam que podemos atingir quase 654 mil mortos em 1º de agosto. Apenas uma correção de rumo pode salvar vidas. Atividade mais essencial que essa, impossível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL