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Leonardo Sakamoto

Após férias milionárias, Bolsonaro diz para pobres irem atrás de empréstimo

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/06/2021 15h51

Apesar de ter entrado para o anedotário mundial, Maria Antonieta, rainha da França no século 18, nunca declarou "se o povo não tem pão, que coma brioches". Mas Jair Bolsonaro efetivamente disse, nesta terça (1), algo semelhante ao afirmar que "quem quer mais [auxílio emergencial], é só ir no banco e fazer empréstimo".

O que os trabalhadores informais pobres que perderam o emprego por conta da pandemia e não estão conseguindo sobreviver com o novo valor do benefício vão dar como garantia de um empréstimo, ninguém sabe. Os próprios rins, talvez?

"Nós gastamos em 2020 com o auxílio emergencial o equivalente a dez anos de Bolsa Família. E tem gente criticando ainda falando que quer mais. Como é endividamento por parte do governo, quem quer mais é só ir no banco e fazer empréstimo", disse.

E não é a primeira vez que isso acontece em seu governo. Não há registro que Bolsonaro ou o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, tenham dito: "se o povo de Manaus quer oxigênio hospitalar, que engula cloroquina". Mas foi o que, de fato, fizeram. O que, segundo Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, transformou os moradores da capital amazonense em "cobaias" da imunidade de rebanho.

Mas se a situação fiscal do país é tão grave a ponto de negar a garantia do mínimo para uma família sobreviver, por que ele gastou milhões dos recursos públicos para bancar suas férias de Ano Novo e de Carnaval?

Bolsonaro e sua equipe de apoio custaram para nós cerca de R$ 1,8 milhão em hospedagem alimentação, passagens aéreas e gastos no cartão corporativo no Carnaval, em São Francisco do Sul, litoral de Santa Catarina. Ele já tinha usado R$ 2,3 milhões dos cofres públicos para curtir o final do ano na mesma São Francisco do Sul e no Guarujá (SP). Um total de R$ 4,1 milhões. As informações foram requeridas ao governo pelos deputados federais Elias Vaz (PSB-GO) e Rubens Bueno (Cidadania-PR).

Com esse montante seria possível aumentar de R$ 375 para R$ 600 o valor pago a mais de 18,2 mil mães que chefiam sozinhas suas famílias por um mês. Ou seja, pelo menos 18,2 mil mulheres não precisariam durante 30 dias seguir a recomendação do presidente da República e ir implorar por um empréstimo bancário para poder dar de comer a seus filhos.

Na primeira onda da pandemia, o governo propôs um auxílio de apenas R$ 200, mas o Congresso Nacional forçou o aumento do valor, que passou a ser de R$ 600/R$ 1200 por domicílio. No segundo semestre, o benefício foi reduzido para R$ 300/R$ 600 por família. Na retomada, no dia 6 de abril, o valor passou a ser de R$ 150, R$ 250 ou R$ 375 mensais.

Enquanto o custo médio da cesta básica de alimentos aumentou em 15 das 17 capitais em abril, segundo levantamento mensal do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o auxílio emergencial foi retomado com um piso muito menor que antes. Os R$ 150 compram, hoje, menos de 25% da cesta básica em Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. E, vale lembrar, a gente não quer só comida.

O valor das férias presidenciais comparado aos bilhões que o Brasil precisa para bancar auxílio emergencial, comprar vacinas, ativar leitos de UTI covid, fornecer oxigênio hospitalar, adquirir insumos para intubação de doentes é muito pouco. Poderia até ser demagogia, mas não é, porque estamos em uma tragédia que já matou 463 mil pessoas e mantém outras tantas sem comer.

De acordo com pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 19,1 milhões passaram fome (9% da população, a maior taxa desde 2004) em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida. O levantamento foi feito em dezembro, antes, portanto, da interrupção de 96 dias no pagamento do auxílio por parte de Bolsonaro e quando o montante pago por família era maior.

O baixo valor de auxílio emergencial e as férias espalhafatosas estão, curiosamente, interligados. Com ambos, ele ajudou a empurrar pessoas de volta às ruas, forçando uma falsa normalidade - ele provocava aglomerações no litoral frequentemente.

O PIB cresceu 1,2% no primeiro trimestre, mas não há serviço para todos, o que significa que a riqueza segue se concentrando na mão de poucos. Enquanto isso, a taxa de desocupação foi de 14,7% ou 14,8 milhões de pessoas, de acordo com o IBGE. Enquanto a pandemia não arrefecer, a falsa sensação de normalidade servirá apenas para aumentar as taxas de contágio.

Preocupado que uma economia deprimida possa prejudicar suas chances de reeleição, Bolsonaro vem atacando medidas de restrição social desde o início da pandemia e ameaçando baixar um decreto para obrigar a reabertura imediata da economia. Em contrapartida, defende o contágio rápido como forma de fazer o vírus parar de circular.

"Sabemos da situação difícil que se encontra a população, que perdeu o emprego. Não por culpa do presidente, eu não obriguei ninguém a ficar em casa, não fechei comércio e por consequência não destruí emprego", acrescentou Bolsonaro nesta terça, praticando o esporte olímpico do Arremesso de Responsabilidade à Distância.

Não é verdade. Por ter atuado duramente contra as medidas de isolamento social, ter promovido um remédio considerado inútil contra a doença e demorado a comprar vacinas, o presidente alongou a pandemia por mais tempo. O que matou pessoas e destruiu empregos.

É paradigmático, portanto, que, no momento em que a população pobre mais precisa de seu presidente, ele terceiriza sua responsabilidade de garantir dignidade ao sistema bancário nacional.