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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro ataca vacina para testar limite das redes sociais de olho em 2022

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/06/2021 12h37

Com a certeza da impunidade, Jair Bolsonaro promoveu em sua live semanal, na noite desta quinta (17), mais uma sessão mortal de desinformação sobre a covid-19. Mais do que uma sabotagem ao combate à covid, ele testou os limites das plataformas de redes sociais de olho na sua campanha eleitoral de 2022.

"Todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina, porque você pegou o vírus para valer. Então quem contraiu o vírus, isso não se discute, está imunizado", disse. Também afirmou: "Eu já me considero, me considero não, eu estou vacinado, entre aspas".

Bolsonaro disse algo equivalente a "quem pegou gripe uma vez está vacinado para gripe para sempre". Você, pessoa bem informada, acredita nisso? Claro que não. Pois, da mesma forma que o vírus da gripe sofre mutações, podendo reinfectar o mesmo indivíduo passado algum tempo, demandando campanha contínua de vacinação, o coronavírus também sofre mutações, podendo contaminar e matar quem já ficou doente e se curou.

Muitos de nós conhecemos amigos, parentes e colegas de trabalho que morreram após pegarem o vírus pela segunda vez. Isso, portanto, não é uma cascata inofensiva, uma vez que há quem acredite na palavra do presidente da República e abra mão de se cuidar.

Em suas lives, Bolsonaro fala com dois públicos. Primeiro, excita seus seguidores fiéis, a parcela de 14% da população que pula no moedor de carne se ele mandar. A maioria esmagadora dos brasileiros quer vacina e está pouco se lixando para essas baboseiras, mas o rebanho bolsonarista não é desprezível e funciona como vetor de disseminação do coronavírus.

Mas ele também cava espaço na imprensa, que tem a obrigação ética de desmentir os absurdos e evitar que os incautos se tornem centros dispersores de covid-19 ao seguir as bobagens presidenciais. O que gera mais cortina de fumaça para a investigação de suspeitas de desvios de dinheiro na aquisição de vacinas e de favorecimento de empresários bolsonaristas na compra da cloroquina, inútil para a doença.

Devido ao contrato de leasing estabelecido com o centrão no Congresso Nacional e à ação sempre atenta de seu apadrinhado, Augusto Aras, na chefia da Procuradoria-Geral da República, o presidente acredita que nada vai acontecer com ele no curto prazo. No longo prazo, sempre há o Tribunal Penal Internacional, que ele tenta adiar com a reeleição.

Diante da cobrança pública para que as plataformas de redes sociais, como Facebook, YouTube e Twitter e aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram atuem de maneira firme contra a sabotagem que ele tem feito à saúde pública, Bolsonaro ameaça com um decreto que impeça a retirada de conteúdos pelas empresas. Enquanto isso, seus apoiadores no Congresso defendem medidas para impedir qualquer remoção de conteúdo e suspensão de contas que não passe por meios judiciais.

Os rompantes do presidente nas lives também têm, portanto, função de testar os limites e mapear o terreno. Ele quer saber até onde as big techs são capazes de ir no equilíbrio entre manter suas regras de uso e evitar um enfrentamento com o governo, o que traria problemas comerciais e políticos. Se fosse um jogo de cartas, Jair estaria, neste momento, trucando a moderação de conteúdo.

Esse teste é fundamental para a preparação de sua batalha digital visando a sua campanha para reeleição em 2022. A seu ver, sua capacidade de reeleição está diretamente relacionada à liberdade que terá para contar mentiras.

Ao mesmo tempo, se as plataformas avançarem na remoção de conteúdo, Jair usará isso como justificativa para baixar o decreto - por mais que a legislação brasileira não proíba empresas de removerem conteúdo.

Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, afirmou, nesta sexta (18), que está protocolando requerimento de convocação dos representantes do Facebook e do YouTube. "Por muito menos, o Twitter e o Facebook baniram Donald Trump", afirmou. "Não se trata de censura. O senhor presidente da República fale as besteiras que quiser onde quiser. Só não pode comprometer a vida dos brasileiros."

Nos Estados Unidos, Trump perdeu controle de suas redes depois de fomentar um golpe de Estado com a invasão do Congresso por seus seguidores após ter perdido nas urnas. A dúvida é se aqui um bloqueio acontecerá antes de um golpe ou depois.