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Leonardo Sakamoto

Diante de 500 mil mortos, ministro pede que olhemos o lado bom da vida

Funcionário passa por meio de sepulturas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM) - Michel Dantas - 25.fev.21/AFP)
Funcionário passa por meio de sepulturas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM) Imagem: Michel Dantas - 25.fev.21/AFP)
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/06/2021 17h39

Em uma releitura da épica cena final de "A Vida de Brian", clássico da comédia produzido pelo grupo inglês Monty Python, o ministro das Comunicações Fábio Faria (PSD) praticamente pediu aos brasileiros que olhassem o lado bom da vida no dia em que ultrapassamos as 500 mil mortes por covid-19.

"Em breve vcs verão políticos, artistas e jornalistas 'lamentando' o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do 'quanto pior, melhor'. Infelizmente, eles torcem pelo vírus", tuitou, neste sábado (19), nas redes sociais.

Na cena final, à beira da morte, Brian, o protagonista do filme, é chamado a ver o lado bom de tudo aquilo. Dezenas de condenados fazem um coro com ele, cantando e assobiando "Always Look On The Bright Side", uma música feliz.

O filme do Monty Python é uma forte crítica ao fanatismo nos tempos modernos e uma sugestão para não seguirmos incondicionalmente outras pessoas e ideias. O que cabe como uma luva para esta era de berrante e rebanho.

A questão é que choramos os 500 mil mortos porque uma boa parte deles não são uma fatalidade, mas resultado de um projeto. Atuando diligentemente para atrasar a compra de vacinas, desincentivar o uso de máscaras, sabotar o isolamento social e promover remédios inúteis contra a doença, Bolsonaro estendeu desnecessariamente a duração da pandemia achando que iria encurtá-la.

Quem adotou o "quanto pior, melhor", na verdade, foi o presidente da República, que atuou para uma contaminação ampla da população, visando a uma imunidade coletiva que nunca chegaria, uma vez que o coronavírus sofre mutações e mata reinfectados. E, ainda que fosse possível, centenas de milhares a mais morreriam se a estratégia de Bolsonaro não sofresse resistência.

Foi ele, portanto, quem torceu pelo vírus, ajudando-o a dilacerar famílias e produzir desempregados - 14,8 milhões deles, para ser mais exato, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua.

Em nossa pior guerra, tivemos o azar de ter no comando um capitão que só pensa em terceirizar responsabilidades a prefeitos e governadores para chegar com chances na eleição de outubro de 2022.

O discurso do ministro vai ao encontro do usado pelo presidente em outras ocasiões. No dia 11 de fevereiro, o presidente já havia nos sugerido engolir a tristeza: "Não adianta ficar em casa chorando, não vai chegar a lugar nenhum", afirmou. E em 7 de abril, repetiu a dose para que não ficassem dúvidas: "Não vamos chorar o leite derramado". Mortos por covid viraram leite derramado.

Muitos dos que foram às ruas protestar contra Bolsonaro em centenas de cidades de todo o país, neste sábado, queriam transformar a dor de seu luto em força para mudança, pressionando por uma saída do governo ou, pelo menos, para que ele abandone sua necropolítica a fim de que outros 500 mil mortos não se tornem realidade.

Já não bastasse levarem nosso direito à vida e ao emprego, também nos roubam o nosso sagrado direito ao luto.

Ou como resumiu Chico Buarque, aniversariante do dia:

"O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá."