PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Sem máscara, Bolsonaro consegue dar mau exemplo até internado no hospital

O presidente Jair Bolsonaro caminha em corredor do hospital Vila Nova Star na manhã desta sexta-feira (16) - Jair Bolsonaro/Instagram
O presidente Jair Bolsonaro caminha em corredor do hospital Vila Nova Star na manhã desta sexta-feira (16) Imagem: Jair Bolsonaro/Instagram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/07/2021 19h51

Não bastasse o presidente da República ter feito campanha contra o uso de máscaras na pandemia, chegando ao disparate de tirar a proteção de crianças em um ato de campanha pré-eleitoral no Rio Grande do Norte, agora ele divulga fotos de si mesmo andando pelos corredores e ao lado de outros pacientes, no hospital Vila Nova Star, sem usar o equipamento.

É irônico. Desde que foi internado, Jair Bolsonaro está divulgando mensagens apelativas, buscando empatia da população com seu quadro clínico, a fim de melhorar sua popularidade - que está em baixa por conta das denúncias de corrupção na compra de vacinas por seu governo. Sim, ele está doente e, como já disse aqui, espero que melhore. Mas ele confirma não sentir empatia por outras pessoas ao ignorar o uso da máscara nas áreas comuns de um hospital enquanto temos 540 mil mortos.

"O Hospital Vila Nova Star acolhe integralmente a legislação brasileira. Todos os pacientes internados na unidade são testados para covid-19, o que inclui o senhor Presidente da República. Além disso, todas as áreas covid-19, tanto no Pronto-Socorro como nos apartamentos e UTI, são isoladas no hospital", disse o hospital em nota enviada à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo.

Consultei médicos em hospitais considerados de ponta na capital paulista, como o Albert Einstein, o Sírio-Libanês, o Oswaldo Cruz e o Hospital das Clínicas da USP, que afirmaram ser obrigatório o uso de máscara no momento em que o paciente deixa os seus quartos. Qualquer paciente. O Vila Nova Star, que se apresenta como um hospital de ponta, permite que um paciente adote um comportamento de risco em suas instalações.

Até porque a contaminação não existe apenas na ala covid dessas instituições, mas pode ocorrer de fora para dentro, até por visitantes. E não se resume ao coronavírus.

"Existe o risco de pessoas contaminadas ainda não terem o coronavírus detectáveis em seus testes, mesmo entre os vacinados. Ou seja, de ocorrer um falso negativo por conta da janela de imunidade. Nesses casos, elas já estão transmitindo", afirma Marcelo Litvoc, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital Sírio-Libanês.

Vale lembrar que o presidente da República não quis se vacinar, porque acredita, erroneamente, que quem pegou já está protegido.

Além disso, o infectologista afirma que pacientes não devem entrar em quartos de outros pacientes por risco de transmissão cruzada. Não apenas pelo coronavírus, mas também por outros vírus e bactérias.

Recentemente, fiquei internado alguns dias por um problema de saúde. Mesmo após dois testes negativos de covid, tive que usar máscara para passar pelos corredores do hospital. Protocolo de segurança.

Doente, o presidente continua usando sua imagem pública para atacar o uso de máscaras, que ele considera inútil. Bolsonaro, desde o início da pandemia, defende a contaminação ampla da população, acreditando que isso trará uma imunidade de rebanho, fazendo com que o vírus pare de circular. A tese é estapafúrdia considerando que se trata de uma doença que já matou 540 mil e produz mutações que podem reinfectar de forma grave mesmo os quem já pegaram a doença.

Bolsonaro é incansável. Mesmo no hospital, consegue ser um mau exemplo para o restante do país. Com a anuência de quem está à sua volta e deveria agir como o adulto responsável nesta hora.