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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Berrante golpista de Sérgio Reis distrai rebanho sobre 14,8 mi sem emprego

O cantor e ex-deputado Sérgio Reis - Reprodução/Instagram
O cantor e ex-deputado Sérgio Reis Imagem: Reprodução/Instagram

Colunista do UOL

20/08/2021 17h32

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Sérgio Reis tocou tão alto o berrante golpista de Jair Bolsonaro que muita gente não escutou que o preço da cesta básica subiu mais de 22% nos últimos 12 meses do governo Jair Bolsonaro. Na atual circunstância, panelas velhas e novas de homens e mulheres estão vazias, bem como suas geladeiras e mesas.

E, na falta de pão, dá-lhe circo.

Após operação contra o cantor Sérgio Reis, que propôs depor ministros do Supremo Tribunal Federal na marra e estava ajudando a organizar atos de apoio ao golpismo de Jair Bolsonaro marcados para o 7 de setembro, as redes sociais e grupos em aplicativos de mensagens da extrema direita trabalharam intensamente na tarde desta sexta (20).

Cinicamente, chamam de golpe os freios do Poder Judiciário para limitar os ataques do presidente e seus aliados à democracia. E, assim, convocam um "contragolpe". Com polícia, com milícia, com tudo.

Enquanto Jair Bolsonaro aproveita o embate com o STF para bombar a micareta golpista, a maior parte dos trabalhadores segue comendo o pão que o diabo amassou. Ou nem isso, pois o pão francês subiu, em média, 1,13% em apenas um mês.

O preço do quilo do tomate aumentou 39,95%, em Belo Horizonte, no mês de julho em relação a junho; o café em pó disparou 10,96%, em Vitória; o açúcar refinado, 8,12%, no Rio de Janeiro; o litro de leitou integral, 5,71%, em Natal. Os números são do Dieese, que realiza um levantamento mensal do custo da cesta básica.

Ao todo, 14,8 milhões de pessoas procuraram serviço sem encontrar, representando 14,6% da população brasileira, segundo levantamento do IBGE. Outros 5,7 milhões desistiram de tentar um emprego, não porque não querem trabalhar, mas por acreditarem que não vão conseguir nada.

O auxílio emergencial que deveria garantir dignidade na pandemia e que foi de R$ 600 ou R$ 1200 no primeiro semestre de 2020, hoje está em R$ 150, R$ 250 ou R$ 375. O piso não compra um 25% da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Florianópolis.

Com isso, a falta de alimentos, que já havia se aconchegado em muitos lares no final do ano passado (9% da população, a maior taxa desde 2004), se ampliou. Foram 19,1 milhões que passaram fome em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida, de acordo com pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Neste ano, com menos recursos e mais desemprego e inflação, a situação está ainda pior.

Apesar de alguma melhora, a geração de empregos não engrenou junto aos mais pobres. Bolsonaro aposta que isso vai mudar em 2022, com a população amplamente vacinada e a economia crescendo. E que com o Auxílio Brasil, o Bolsa Família rebatizado e com maior valor nominal, vai mudar a percepção da classe E sobre ele.

Em fala para seus apoiadores na porta do Palácio do Alvorada, na manhã desta sexta, Bolsonaro afirmou que estará nos atos em Brasília e São Paulo. "Vamos ter uma fotografia para o mundo do que vocês querem", como se seus seguidores mais fiéis, 15% da população, segundo o Datafolha, representassem a vontade de todo o povo.

Se Jair mostrasse uma fotografia para o mundo do que os brasileiros querem, seria um prato cheio de comida. Mas essa imagem, ele não consegue garantir.