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Leonardo Sakamoto

Julgadas pela roupa, não por ideias: Como o machismo se vestirá na eleição

Mesa do Senado é ocupada por senadoras em sessão que analisou propostas relacionadas a direitos das mulheres -  Jonas Pereira/Agência Senado
Mesa do Senado é ocupada por senadoras em sessão que analisou propostas relacionadas a direitos das mulheres Imagem: Jonas Pereira/Agência Senado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/09/2021 11h55

Por Mayra Cotta e Thais Farage*, especial para a coluna

Não importa a ideologia ou partido político das milhares de mulheres que se candidatarão a cargos públicos no ano que vem, parte dos desafios que enfrentarão serão materializados nos ataques à forma como escolhem as suas roupas. Independentemente de quanto poder uma mulher tenha, ela será sempre lembrada que não pertence àquele lugar através de ataques à forma como se veste.

Quem acompanha a política institucional sabe que as campanhas para as eleições de 2022 já começaram. Candidatos e candidatas estão decidindo sobre quais cargos disputarão, partidos estão se organizando internamente para definir suas estratégias eleitorais e a sociedade civil organizada se movimenta para conseguir pautar o debate público. Existe, contudo, um elemento deste processo que é especialmente desafiador para as mulheres: a roupa.

No mundo do trabalho em geral, e na política institucional em especial, a roupa das mulheres está permanentemente inadequada, como uma expressão concreta de um recado que nos é transmitido: que não pertencemos a esses espaços.

A partir dos problemas que surgem no momento de escolhermos nossa roupa para ir trabalhar, podemos nos aprofundar nas razões históricas, sociais, políticas e culturais que explicam este arranjo tão estruturalmente injusto para as mulheres.

Na política institucional, podemos ver ainda mais concretamente a dimensão deste problema, uma vez que neste espaço acumulam-se tanto as violências típicas de gênero dos ambientes de trabalho, quanto as resistências sistêmicas à ocupação de posições de poder por mulheres.

Há três exemplos da política internacional contemporânea que, juntos, são capazes de ilustrar a exclusão histórica das mulheres das instituições formais de poder.

A Alemanha se escandalizou com o vestido decotado de Merkel

O primeiro deles é de 2008, quando a chanceler alemã Angela Merkel foi à ópera com um vestido decotado e este evento se tornou um escândalo de grandes proporções. Pelas reações, uma senhora de mais de 50 anos, à frente de uma das maiores economias do mundo, estava autorizada a definir os destinos da União Européia, mas proibida de aparecer publicamente mostrando seu colo.

O cargo de chanceler aparentemente exigia mais recato de Merkel, ainda que jamais tenha sido comprovada qualquer relação entre a competência para governar e o tanto de pele que é exposta por alguém. A baixaria foi tão grande que isso foi o principal trunfo político de seus adversários: acusá-la de mostrar o corpo para ganhar votos. Pois é.

A opção pelo recato, contudo, também não aplaca as ansiedades misóginas sempre prontas a interditar a participação política de mulheres. Em 2012, a ministra de habitação francesa, Cécile Duflot, foi discursar ao parlamento com um vestido de corte conservador e sem decote.

Ainda assim, foi alvo de deboches e críticas pela estampa do vestido, que era branca com flores azuis. A ministra mal conseguiu terminar o seu discurso diante dos risos desrespeitosos dos homens presentes. Fez-se questão de deixar evidenciado que a estampa florida, assim como as mulheres, não eram bem-vindas naquela instituição formal de poder.

Diante destes dois exemplos, poderíamos pensar que talvez uma roupa de corte tradicional e cores consideradas sóbrias fosse permitir às mulheres da política institucional o exercício de seu trabalho sem maiores dramas a respeito de sua vestimenta. Será?

Em 2009, a ministra da defesa espanhola, Carme Chacón, foi hostilizada durante uma cerimônia oficial do governo por usar um conjunto preto de blazer e calça. Neste evento, Chácon fez história por ser a primeira mulher a fazer um discurso ao rei, mas o assunto mais comentado sobre a noite foi a roupa que ela havia escolhido. Os críticos não gostaram de vê-la usando uma vestimenta considerada masculina demais.

No Brasil, um corte de cabelo se torna assunto mais comentado que as ideias

A nossa política institucional também é repleta de exemplos que nos ajudam a desvendar as estruturas que mantêm a desigualdade de gênero em tantas práticas cotidianas. Estar atenta à relação das candidatas com a roupa e a influência desta relação nos debates públicos deve fazer parte do nosso engajamento político.

Se quisermos aumentar a representatividade de mulheres negras no Congresso, precisamos entender por que Talíria Petrone, com suas roupas coloridas, é frequentemente barrada na entrada do Plenário da Câmara dos Deputados.

Se pretendemos que a política seja ocupada cada vez mais por mulheres que encampem nossas lutas, precisamos entender por que o corte de cabelo de Manuela D'Avila foi assunto largamente comentado durante as últimas eleições para a prefeitura de Porto Alegre.

Se a nossa intenção é que nunca mais seja eleito presidente quem disse que não estupraria uma mulher porque ela era feia, precisamos entender por que o decote da deputada estadual Paulinha foi o assunto mais comentado nas redes a respeito da posse da última legislatura de Santa Catarina.

Se nos causa revolta o assédio sexual flagrado em câmera e ainda assim impune, precisamos entender por que um deputado federal se sentiu confortável o suficiente para perguntar a Tábata Amaral quem ela queria provocar com o batom vermelho que usava.

Se quisermos avançar no sentido de uma sociedade mais justa e digna para todas as mulheres, refletir sobre o trinômio roupa-mulher-trabalho é tarefa urgente.

Mayra Cotta é advogada especializada em gênero e professora na New School for Social Research, em Nova York; Thais Farage é consultora de moda, especialista em estética e gestão de moda pela USP.

São autoras do livro "Mulher, Roupa, Trabalho: Como se Veste a Desigualdade de Gênero", em pré-lançamento no site da Companhia das Letras.