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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro pede que tomemos banho frio para combater a crise que ele criou

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/09/2021 08h24

Jair Bolsonaro sugeriu, nesta quinta (23), que a população tome banhos frios, evite elevadores e apague as luzes para ajudar com a crise elétrica. É uma grande ironia, uma vez que a crise, ao contrário dos que afirmam que ela decorre de uma grave seca pontual trazida pelo La Niña, é resultado da má gestão do seu governo, que ignorou o impacto das mudanças climáticas na produção de energia.

O Brasil não poupou os reservatórios das hidrelétricas para um momento crítico, tal como um motorista que enche o tanque apenas pela metade e encontra um trecho longo de estrada sem postos. E, na reserva, sua frio, torcendo para conseguir chegar ao outro lado sem uma pane.

Em um evento on-line realizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Luiz Carlos Ciocchi, afirmou que o Brasil deve evitar o racionamento de energia entre 2021 e 2022. Mas que existe a possibilidade de "problemas de pico da demanda em outubro e novembro".

Traduzindo, há chance de apagão - palavra que relembra a crise hídrica do governo Fernando Henrique, que contribuiu para que ele não elegesse um sucessor. E, talvez por isso, muita gente cisme em não pronunciá-la ou escrevê-la.

Chance é uma palavra por demais otimista para o momento em que estamos, a bem da verdade. Uma nota técnica do próprio ONS, publicada em 25 de agosto, avaliando a situação do Sistema Interligado Nacional (SIN), aponta que não teremos energia para chegar incólumes até dezembro.

O estudo analisa dois cenários de atendimento da demanda energética, trabalhando com as condições reais de geração e estimando quanta energia adicional o país deveria ser capaz de gerar para evitar o desabastecimento antes do final de novembro.

A conclusão é que vai faltar, mesmo com todas as medidas emergenciais adotadas.

"Mesmo com o esgotamento dos principais recursos hidráulicos do Sudeste/Centro-Oeste, com o atingimento da faixa de restrição das usinas da bacia do São Francisco, com despacho térmico pleno, e com maximização da transferência de energia do Norte/Nordeste para o Sudeste considerando limites de transmissão flexibilizados segundo o critério N-1, os recursos são insuficientes para atendimento a mercado de energia, resultando em déficits de 3.824 MWmês no mês de outubro e de 3.746 MWmês no mês de novembro", diz a nota técnica.

Tanto que ela avalia que "para assegurar o atendimento energético é imprescindível o aumento da oferta em cerca de 5,5 GW med entre setembro/21 e novembro/2021, totalizando 16,5 GW mês".

Não é que vamos ficar no escuro por dias ou semanas, mas o sistema se mostra insuficiente para atender à demanda em momentos de pico, podendo ter que desligar uma parte da rede ou a rede inteira para evitar problemas mais graves. Vale lembrar que os reservatórios não precisam estar secos para isso acontecer, uma vez que quanto mais baixo o nível, menor o rendimento das usinas.

Ressalte-se que governos anteriores também não deram ouvidos a cientistas, ambientalistas e especialistas que avisavam que o regime hídrico estava se alterando e apostaram em grandes hidrelétricas diante de uma queda sistemática na vazão dos rios - e apesar dos impactos sociais e ambientais que elas trazem.

Não é à toa que o presidente venha a público agora pedir para a população tomar banho frio. Considerando que é difícil tirar da cartola gigawatts de energia nova, a saída é fazer com que os consumidores usem menos.

Se pedidos como esse são péssimos para a popularidade dele junto ao povo (ele já é reprovado por mais da metade da população nas pesquisas Datafolha e Ipec) e para a retomada da economia (que precisa de energia para ocupar a capacidade ociosa e voltar a crescer), a imagem de apagões queimando geladeiras e computadores será ainda pior.

Em tempo: Para evitar que o negacionismo da atual gestão caia no esquecimento, vale lembrar uma declaração do então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, dada no Congresso Nacional em 30 de maio de 2019. Ele afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto". Nada sobre a emissão de gases de efeito estufa pelo ser humano. Hoje, temos um novo chanceler, Carlos França. Ele não menosprezou a questão das mudanças climáticas. A curtição dele, ao que tudo indica, é fazer arminha com os dedos, apontando para manifestantes, em meio à Assembleia Geral das Nações Unidas.