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Leonardo Sakamoto

Para ajudar Hang na CPI, bolsonaristas usam tática de bullying de 5ª série

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

29/09/2021 15h32

Bolsonaristas abraçaram a tática do tumulto no depoimento à CPI da Covid, nesta quarta (29), de seu aliado o empresário Luciano Hang, acusado de bombar fake news sobre a pandemia e compactuar com a mudança no atestado de óbito da própria mãe, morta devido a complicações da covid-19.

O tumulto não tem força para apagar as evidências apresentadas pelos senadores de que Hang contribuiu com a sabotagem presidencial no combate à pandemia, mas anima os negacionistas, que celebram as cenas de caos nas redes sociais.

É um modus operandi bem conhecido com o objetivo de a) provocar senadores da oposição até que saiam do sério, b) gastar o tempo da sessão para evitar que depoentes respondam perguntas de todos os senadores (há ótimos inquiridores que, normalmente, ficam mais para o final), c) deslegitimar perguntas contrárias ao governo e, se possível, d) encurtar o depoimento diante da instalação do caos.

Para tanto, adotam táticas de bullying usadas por garotos de quinta série (soltam críticas e ironias sobre as perguntas dos colegas e tentam melar questões delicadas com declarações estapafúrdias) e outras mais avançadas, como empurrar robôs e seguidores nas redes sociais para atacar os críticos. Durante a inquirição de Hang, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) pediu para a presidência da comissão investigar ataques maciços que estavam ocorrendo contra senadores da oposição nas redes.

Quando os bolsonaristas adotam essa tática diante de sessões mais politicamente sensíveis, a temperatura sobe. Foi assim com o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, ou com o controlador-geral da União, Wagner Rosário, que causaram tanto que não chegaram a terminar seus depoimentos. E, neste caso, não foram apenas os senadores e o depoente, mas também os advogados - que foram acusados de ofender Rogério Carvalho, o que levou à interrupção da sessão.

Por volta das 15h30, senadores governistas pediam para que o depoimento seja retomado amanhã porque não haverá tempo para todos perguntarem. Isso garante ao depoente que tenha espaço para checar a efetividade de sua estratégia e recombinar o jogo com senadores aliados.

Vídeo com propaganda da Havan na CPI foi provocação para gastar tempo

Uma propaganda das lojas Havan veiculada por Luciano Hang na CPI, que acabou, por isso, tendo espaço na TV Senado, GloboNews, no UOL, entre outros veículos, faz parte desse processo de tumultuar. Sua utilização não foi aleatória, mas uma provocação pensada para gerar polêmica e gastar tempo.

Esse caos é reservado a algumas personalidades, não todas. A maior evidência de que o governo Bolsonaro estava preocupado com o depoimento de Luciano Hang é a presença de seu primogênito, Flávio. Apesar de ter se tornado membro suplente com a ida de Ciro Nogueira (PP-PI) para a Casa Civil, ele não vai a todas as sessões da CPI da Covid, apenas quando precisa tumultuar um depoimento e jogar fumaça.

O senador reclamou da indireta que o relator Renan Calheiros (MDB-AL) fez a Hang, falando de pessoas que assumiram o papel de bobos da corte na pandemia. Mas, ironicamente, é a atuação de Flávio que é semelhante à dos bufões medievais. Essa figura, aliás, de tola não tinha nada, porque sabia de sua força junto à corte, tendo liberdade de insultar os presentes e sair ileso.

A diferença é que entretinha com o objetivo de fazer esquecer da dureza da vida. Neste caso, a dureza são quase 600 mil mortes adubadas com o negacionismo produzido pelas mentiras do Gabinete Paralelo do Ministério da Saúde, pelas manipulações de números da Prevent Senior e pelas fake news do presidente da República. Tudo bombado com o apoio de empresários aliados.

Portanto, a melhor definição das primeiras horas da CPI, em que o tumulto tomou conta, sem espaço para respostas de Hang, foi dada pelo próprio Flávio. De acordo com ele, o depoimento seria um circo, com seus palhaços. A comparação não cabe porque a atividade circense e seus profissionais são coisa séria, ao contrário do negacionismo defendido por membros da base de Jair Bolsonaro.

Em tempo: Luciano Hang, que é acusado de financiar também outros tipos de fake news favoráveis ao governo Bolsonaro, reclamou de ter sido vítima de fake news na CPI: a de que a Havan pertenceria à filha da ex-presidente Dilma Rousseff. O pitoresco da história é que uma das responsáveis por bombar a mentira foi a, hoje, deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), fiel escudeira do bolsonarismo, há seis anos.