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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro e centrão usam fome para garantir bilhões a emendas parlamentares

Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira - Reprodução
Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/10/2021 12h40

Jair Bolsonaro diz que precisa de dinheiro para dar aos pobres por causa da fome - ele é corresponsável pela inflação e a pobreza, mas isso é outra história. Para tanto, defende um calote gigantesco em dívidas do governo. Deputados e senadores governistas bradam que precisam aprovar esse calote em nome dos pobres. Mas o calote é tão grande que, somado à mudança no teto dos gastos embutida no mesmo projeto, vai gerar sobra multibilionária. Que deputados, senadores e o presidente querem usar para bancar suas reeleições.

A graça de viver no Brasil não é apenas que nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, mas que cara de pau maior que a de alguns de nossos políticos não há.

A Câmara dos Deputados discute um projeto que posterga o pagamento de precatórios, dívidas do governo que incluem até grana que aposentados precisam receber após correções de cálculo. Somando isso ao atropelo do teto de gastos (eu não defendo essa regra lambisgoia, mas acho o ó do borogodó o oportunismo de contorna-la só para reeleger picareta), vai abrir uma folga orçamentária.

Parte desse dinheiro será usado para bancar o Auxílio Brasil, a versão do Bolsa Família coberta com leite condensado, que deve pagar R$ 400 até o final de 2022 a 17 milhões de famílias de eleitores. Também deve ser empregado para cobrir uns buracos na Previdência. Mas o que parte dos parlamentares estão de olho mesmo é na possibilidade de, veja só que terrível coincidência, "sobrar" algo entre R$ 10 e 13 bilhões, que seriam destinados a emendas para parlamentares gastarem em seus redutos e ao fundo eleitoral.

O governo federal e o centrão poderiam alocar toda essa dinheirama para colocar em prática o Projeto Nacional de Fomento a Empregos Verdes, gerando vagas formais, decentes e que ajudam a combater mudanças climáticas? Sim, claro. Mas para tanto esse projeto teria que existir. Na verdade, o Brasil teria que ter um projeto nacional que não passasse pelo bem-estar apenas do presidente e seus aliados.

A oposição afirma que topa mudar o teto em nome de garantir recursos cascalho para a sobrevivência dos mais pobres neste momento - o que é fundamental, dada a barafunda que essa gestão nos meteu. Mas que vai votar contra a Festa da Fruta bancada pelo cambau nos precatórios. Reclamam que é muita cara de pau o governo ter feito três anos de mimimi em cima de uma suposta responsabilidade fiscal para mandar tudo para o espaço perto das eleições.

O governo Bolsonaro e o centrão usam a fome dos pobres como justificativa para mudanças legais que possibilitem usar o máximo da máquina pública em ano eleitoral. Diante de perguntas sobre a esquisitice de tudo isso, questionam repetidas vezes se os mais pobres não merecem R$ 30 bilhões, afirmando que é muita maldade negar isso a quem passa dificuldade.

Uma chantagem explícita cujo grande prêmio nunca foi a sobrevivência desses mesmos pobres, mas a deles próprios.