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Leonardo Sakamoto

'Marielle Franco Peneira': Fascismo dá as caras em troca de nomes no iFood

Reprodução do app IFood com nomes de restaurantes trocados  - Reprodução
Reprodução do app IFood com nomes de restaurantes trocados Imagem: Reprodução
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/11/2021 01h01

No Dia de Finados, nesta terça (2), nomes de alguns estabelecimentos listados no aplicativo iFood foram alterados para "Marielle Franco Peneira", entre outros. A empresa afirma que isso ocorreu a partir da conta de um funcionário de uma prestadora de serviços, que tinha permissão para ajustar informações cadastrais.

A vereadora Marielle Franco foi executada junto com seu motorista, Anderson Gomes, após o carro em que estavam ser alvo de uma emboscada em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. Ela recebeu quatro tiros na cabeça, ele três, nas costas. O crime covarde segue sem punição.

Desde seu assassinato, Marielle vem sendo alvo do ódio nas redes sociais e aplicativos de mensagens da extrema direita. O que aconteceu no iFood não foi um fato isolado, mas um breve afloramento de um lençol freático de esgoto que segue borbulhando no subterrâneo da sociedade.

Mentiras, como ela ter sido financiada pelo Comando Vermelho ou casada com o traficante Marcinho VP, foram bombadas por grupos que militam contra a esquerda, sendo compartilhadas até por um deputado e uma desembargadora. Memes sobre a execução da vereadora ainda são recorrentes em grupos bolsonaristas, parte dos quais celebrou a alteração no iFood.

Além do escárnio com a execução da ativista pelos direitos das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+ e de minorias, ou seja, tudo o que parte do bolsonarismo despreza, estabelecimentos comerciais no iFood também foram renomeados para "Lula Ladrão", "Bolsonaro 2022", "Vacina Mata" e "Petista Comunista".

De acordo com nota, a empresa identificou que aproximadamente 6% dos estabelecimentos foram afetados. "O acesso da prestadora de serviço foi imediatamente interrompido, e os nomes dos restaurantes já estão sendo restabelecidos", afirma.

Marielle segue incomodando a extrema direita mais de três anos após sua morte

Uma das fontes para a paranoia do bolsonarismo contra Marielle é o próprio presidente da República. E não apenas porque milícias, grupos de policiais criminosos que são por ele incensados, podem ser os mandantes do crime. Há questões psicanalíticas mais profundas.

Por exemplo, em 26 de maio do ano passado, Jair resolveu fazer uma sessão de terapia na porta do Palácio do Alvorada, demonstrando ciúmes do tratamento dado à vereadora.

"Quando levei a facada, eles não falaram nada. Não vi ninguém da Folha falando 'quem matou o Bolsonaro?' Pelo contrário, levo pancada o tempo todo. Se for pegar o número de horas que a Globo fez para Marielle e no meu caso, acho que dá 100 para um, mas tudo bem", disse.

Primeiro, é necessário lembrar a Bolsonaro que ele não morreu. Segundo, houve grande repúdio nos grandes veículos de imprensa ao abominável atentado que sofreu. Terceiro, a Polícia Federal chegou à conclusão de que Adélio Bispo agiu como um lobo solitário contra ele, mas a morte de Marielle ainda não chegou a uma solução. O que a polícia afirma é que ela foi executada em um esquema profissional que envolveu até matador de aluguel - vizinho do presidente, aliás.

E essa é outra razão de fixação dos bolsonaristas pelo caso.

A novela do porteiro do condomínio Vivendas da Barra

O porteiro do condomínio Vivendas Barras, localizado na Barra da Tijuca, no Rio, havia dito à Polícia Civil que um dos suspeitos de cometer o crime, o ex-policial militar Élcio de Queiroz, interfonou para a casa de Jair Bolsonaro, tendo sua entrada autorizada por alguém que ele identificou como "seu Jair". Era 14 de março de 2018, dia das execuções.

E contou que, depois que teve a entrada autorizada, Élcio foi à casa do ex-policial e miliciano Ronnie Lessa - acusado de ser o autor dos disparos que matou Marielle e Anderson. Ambos estão presos.

No dia da morte de Marielle e Anderson, Bolsonaro não estava no Rio de Janeiro, mas em Brasília, em sessão da Câmara dos Deputados.

Depois, o porteiro mudou o depoimento. Afirmou que havia anotado errado no registro do condomínio a casa para onde Élcio de Queiroz estava indo, marcando a de número 58 (do presidente) no lugar da 66 (de Ronnie). Disse à Polícia Federal que para compensar o erro escrito inventou a história da ligação para o "seu Jair".

Em 30 de outubro de 2019, o então ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que investigassem o porteiro após o depoimento que ele deu à Polícia Civil. A oposição no Congresso e juristas avaliaram que ele estava usando seu cargo para o benefício do presidente da República no que foi considerado uma intimidação da testemunha de um caso sob investigação.

Ironicamente, Sergio Moro deixou o ministério no dia 24 de abril de 2020 alegando interferência política de Bolsonaro sobre a Polícia Federal.

Em seu depoimento à CPI da Covid, o ex-governador do Rio, Wilson Witzel, que sofreu impeachment, em abril, por crime de responsabilidade por corrupção na pandemia, afirmou que Bolsonaro passou a persegui-lo quando ele mandou investigar o caso Marielle.

Vale também lembrar que o então candidato a governador, Witzel participou de um comício, em outubro de 2018, em que foi quebrada uma placa com o nome de Marielle, com a presença do hoje deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que usa tornozeleira eletrônica após ser preso por ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal, e o hoje deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), alvo de ação por usar funcionário fantasma.