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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro plantou 22% de fãs e sócios para colher sua passagem ao 2º turno

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/11/2021 16h41

A nova pesquisa Ipespe, divulgada nesta sexta (26), trouxe um banho de água fria aos candidatos à candidato da terceira via. Lula aparece com 32% e Bolsonaro, 22%, na intenção de voto espontânea, quando não são apresentadas opções de nomes. Esse patamar reforça a capacidade de resiliência do presidente e a tarefa inglória de construção de um nome alternativo.

Em janeiro de 2020, Bolsonaro contava com 20%, tendo chegado a 26% por conta dos impactos eleitorais da primeira fase do auxílio emergencial, e descido a 21%, quando o Brasil roçou o inferno com o apogeu da segunda onda da covid-19. Enquanto isso, Lula subiu de 5% a 32% após o Supremo Tribunal Federal anular suas condenações e considerar que Sergio Moro não foi isento para julgá-lo.

O ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro, aliás, tem 3% - o mesmo patamar de Ciro Gomes. João Doria, apenas 1%.

Ou seja: mesmo tendo ele sido indutor de morte e fome no último ano, o colchão de segurança do presidente manteve-se inalterado. E vai ser difícil tirar isso dele. Vale ressaltar que o voto espontâneo é o mais forte, pois está na memória do eleitor.

Não há segredo algum nisso. Desde que assumiu, Bolsonaro adotou a estratégia de governar pensando na parcela da população que divide com ele visões de mundo. Ultraconservadores em comportamentos e costumes, determinados grupos religiosos, parte dos policiais e dos militares, por exemplo.

A cada mudança de humor desse grupo, ele rapidamente agia, alterando indicações a cargos públicos, distribuindo justificativas, propondo medidas esdrúxulas para alegrar os fãs. Quando surgiam denúncias de desvios envolvendo a ele e a seus filhos, Jair Messias produzia cortinas de fumaça a fim de distrair o seu povo escolhido.

Esses 22% não se resumem aos bolsonaristas-raiz (só por curiosidade: o Datafolha aponta que os que acreditam em tudo o que Jair diz perfazem 15%), mas também envolvem setores que têm lucrado com a política de desconstrução institucional do atual governo.

Na lista, estão a parcela anacrônica do agronegócio e do extrativismo que está feliz da vida com o passe-livre dado pelo presidente (em detrimento ao meio ambiente, aos indígenas, aos trabalhadores) e a parte do mercado financeiro que não se importa com um governo autoritário desde que ganhe dinheiro com ele. Sim, ele tem fãs, mas também tem sócios.

E caso consiga emplacar o Auxílio Brasil, sua versão eleitoreira do Bolsa Família, de R$ 400 ao longo do próximo ano, pode evitar uma queda maior ou, na melhor das hipóteses, conquistar mais alguns pontos de intenção de voto.

Na pesquisa estimulada, em que são apresentadas opções ao eleitor, Lula segue com 42% (eram 42% em outubro deste ano e 24% em janeiro de 2020). Bolsonaro apresenta 25% (28% e 24%, respectivamente), Sergio Moro, 11% (não foi listado em outubro, mas em janeiro de 2020, contava com 17%), Ciro Gomes, 9% (11%, 11%), João Doria, 2% (4%, 2%).

Considerando que a margem de erro é de 3,2 pontos percentuais, é possível dizer que Bolsonaro, Ciro e Doria oscilaram na margem, ou seja, pode ser que tenham permanecido estáveis. Ou Moro levou pontos de Ciro e Doria (o que é briga interna da terceira via), tendo apenas arranhado Bolsonaro, que continua com uma fortaleza de 22% de votos espontâneos.

Claro que pesquisas realizadas a quase um ano das eleições são tão capazes de prever o que acontecerá em outubro de 2022 como um daqueles periquitos de realejo que preveem sua sorte por cinco reais.

Essa é uma fotografia deste momento, em que alguns partidos, grupos de interesse, formadores de opinião e um naco da mídia se esforçam para construir uma alternativa a Lula e Bolsonaro.

A fotografia de um momento em que pré-candidaturas tentam ser anabolizadas para vingarem. Todos têm até as convenções partidárias no final do primeiro semestre do ano que vem para mostrar ao que vieram. E, por enquanto, estão muito longe disso, apesar do wishful thinking de muita gente.