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Leonardo Sakamoto

?Boas-vindas? de Bolsonaro à ômicron age como fumaça para a inflação a 10%

Reuters
Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/01/2022 09h17

É óbvio que é bisonho um presidente da República afirmar que a ômicron é "bem-vinda" ao Brasil. A chegada de uma nova variante do coronavírus, mesmo que menos letal que as anteriores, vai deixar mortes e sequelas e só é festejada por quem tem pouco apreço à vida dos outros.

Mas esse roteirinho é tão manjado que enjoa. Na semana em que o IBGE divulgou que a inflação acumulada de 2021 chegou a 10,06%, e que atingiu principalmente os mais pobres, o presidente volta a provocar repúdio na esmagadora maioria racional da sociedade através de declarações estapafúrdias sobre a saúde pública, sobre ministros do Supremo Tribunal Federal, sobre qualquer coisa que faça sombra.

Ele sabe que esse tipo de coisa choca e gera mídia, então investe para aumentar a cortina de fumaça sobre a incompetência de sua gestão na área econômica, o fator crucial para a eleição deste ano.

Bolsonaro, há tempos, trabalha com base num cálculo macabro, de que os mortos por covid-19 representam, hoje, 0,29% da população, enquanto o desemprego está em 12,1%, a renda média caiu 11% e a última estimativa de famintos, agora largamente subdimensionada, passava de 9% dos brasileiros.

Claro que mais de 620 mil mortos elevaram sua gestão ao hall dos necrogovernos globais e jogaram sua popularidade lá embaixo por aqui. Mas ele traçou uma estratégia contando que há mais pessoas que passam dificuldades econômicas do que famílias e amigos em luto por seus entes queridos.

Ele faz macaquices enquanto tenta ganhar tempo. Aposta na força do pagamento do Auxílio Brasil (o antigo Bolsa Família) no valor mínimo de R$ 400 para alavancar sua popularidade entre os mais pobres até a eleição de outubro. O aumento no valor da transferência de renda, na sua avaliação, pode ajudar a compensar a mordida da inflação - que encareceu alimentos, gás de cozinha, energia elétrica, combustível?

A pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta (12), apontou que, entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos que recebem o Auxílio Brasil, a avaliação negativa de Bolsonaro caiu de 63%, em novembro, para 53%, em janeiro. Enquanto isso, a avaliação regular subiu de 22% para 28% e a positiva, de 13% para 17%, no mesmo período.

Jair e aliados acreditam que podem recuperar parte da aprovação que obteve no primeiro semestre do ano passado, quando o Congresso Nacional negou a intenção do ministro Paulo Guedes de pagar um vale-coxinha de R$ 200 e forçou pelos R$ 600 de auxílio emergencial. Não só recuperar, mas tirar pontos de Lula, que tem amplo apoio nesse grupo social, levando à realização de um segundo turno.

Se a eleição fosse hoje, segundo a Quaest, o ex-presidente Lula poderia vencer no primeiro round com 45%, seguido por Bolsonaro (23%), Moro (9%), Ciro (5%), Doria (3%), Tebet (1%). Pacheco e D'Ávila não pontuaram. A soma dos concorrentes de Lula é de 41%, o que levaria a um empate no limite da margem de erro.

Como bem avaliou a professora de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, temos "um espalhador de vírus contumaz que agora virou recepcionista de variante" ao dar as boas-vindas à ômicron.

A história ganha uma coloração ainda mais sombria quando se percebe que ele faz isso não por uma questão puramente ideológica, o que já seria tosco e grave, mas para distrair a população daquilo que, na sua opinião, pode removê-lo do Palácio do Planalto.