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Leonardo Sakamoto

Mentira do governo Bolsonaro deu respaldo aos defensores da cloroquina

Reuters
Imagem: Reuters
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/01/2022 15h55

Após mentir em nota técnica ao afirmar que vacinas não são efetivas no combate à covid-19 enquanto a ineficaz hidroxicloroquina é, e ser duramente criticado por isso, o Ministério da Saúde republicou o documento, nesta quarta (26), excluindo uma tabela que fazia a comparação imprópria. Contudo, não mudou o resto do texto. Dessa forma, continua se omitindo quanto à prescrição de produtos ineficazes para o tratamento da doença e dá respaldo aos médicos defensores do chamado "kit covid".

"Tiraram apenas o 'bode da sala' ao remover a tabela", afirmou à coluna o pneumologista Carlos Carvalho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele foi o escolhido pelo ministro Marcelo Queiroga para coordenar os estudos que levaram à elaboração de diretrizes para o tratamento de covid-19 da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec).

Entre as recomendações que foram fruto desse esforço, a de que médicos e população não usem produtos do chamado "kit covid" no tratamento da doença porque a ciência comprovou que são ineficazes. O documento não foi aprovado pelo ministério.

Mesmo sem a tabela polêmica, a nota técnica que deveria orientar sobre o kit covid ainda permanece um longo texto cheio de evasivas, que se omite diante da questão se esses medicamentos são eficazes ou não. Um limbo no qual os médicos do kit covid podem continuar caminhando e ganhando tempo.

"Continuamos sem uma recomendação oficial do Brasil sobre o uso desses produtos", avalia Carvalho.

Uma diretriz não tem caráter obrigatório, ou seja, médicos continuariam tendo liberdade para indicar. Mas os defensores da hidroxicloroquina temem que a partir do momento em que o Ministério da Saúde divulgar uma recomendação de que esse produto não funciona para covid-19 isso será usado na Justiça por pacientes ou seus familiares que se sentirem prejudicados.

A manutenção do limbo também agrada ao grupo negacionista dos seguidores do presidente da República, o que é valioso em ano eleitoral. E evita o constrangimento de o próprio governo desmentir Jair Bolsonaro, que se tornou um dos embaixadores mundiais do kit covid, defendendo o uso desses produtos ineficazes para a doença até em seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no ano passado.

Médicos vão pedir ao Ministério da Saúde que reconsidere nota técnica

O uso de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina ou ozônio por via anal transmite uma falsa sensação de que as pessoas estão protegidas e que, portanto, não precisariam se vacinar.

O resultado desse discurso negacionismo, que prefere esses remédios à vacina, pode ser visto nos números: do total de internados por covid-19 em UTIs do Distrito Federal, 90% não receberam nenhuma dose de vacina. E um levantamento da Secretaria de Saúde de Minas Gerais apontou que o risco de morte dos não imunizados é 11 vezes maior do que quem recebeu duas doses.

Carvalho e o grupo coordenado por ele vão entregar nos próximos dias um contraponto pedindo a revisão da nota técnica ao secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Hélio Angotti Neto, que assinou as duas notas, e ao ministro Marcelo Queiroga.

Isso deve fazer com que Queiroga se posicione. Ou terá que abraçar a posição de Angotti, que também é a posição do Jair Bolsonaro, ou apoiar a comunidade científica. A questão é que nos momentos em que foi chamado a fazer tal escolha, o ministro preferiu ficar com o presidente. O que levou, por exemplo, a um atraso na vacinação de crianças de 5 a 11 anos.

Uma das razões para isso é que Queiroga tem pretensões eleitorais. Estuda em se candidatar a governador, senador ou a deputado federal pela Paraíba. Quer contar com o apoio de Bolsonaro e dos bolsonaristas.

O secretário Hélio Angotti Neto ainda se eximiu de responsabilidade pela polêmica nota em que afirmou que a vacina é ineficaz enquanto a cloroquina funciona. Disse na nova nota técnica que os dados "ensejaram incorretas interpretações". Em outras palavras, afirmou que o problema é de quem leu errado.

O secretário é considerado um dos expoentes bolsonaristas do Ministério da Saúde e vem pregando o negacionismo na pandemia. É "candidato" a ser indicado para a presidência da Anvisa, sucedendo Antônio Barra Torres - indicação que dificilmente seria aprovada pelo Senado, claro.

Ironicamente, seu avô, Hélio Angotti, foi um médico progressista, compromissado com a democracia e com a busca por justiça social. Foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (hoje UFTM), de um hospital dedicado ao tratamento do câncer em Uberaba que hoje leva seu nome. E, na política, aliado de João Goulart e Juscelino Kubitschek.