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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro irritado em dia de incertezas sobre Doria e Moro é coincidência?

O governador João Doria entrega ao ex-ministro Sergio Moro a Ordem do Ipiranga, no Palácio dos Bandeirantes, em 2019 - Eduardo Knapp/Folhapress
O governador João Doria entrega ao ex-ministro Sergio Moro a Ordem do Ipiranga, no Palácio dos Bandeirantes, em 2019 Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

31/03/2022 16h05

Diante de um dia de incertezas sobre a permanência de João Doria (PSDB) e Sergio Moro (agora, União Brasil) na corrida eleitoral, nesta quinta (31), Jair Bolsonaro (PL) estava mais Bolsonaro que de costume.

Atacou o Supremo Tribunal Federal ("se não tem ideia, cala a boca, coloca a sua toga e fica aí, sem encher o saco"); ovacionou a ditadura militar afirmando que "seríamos uma republiqueta" sem o golpe; defendeu o deputado Daniel Silveira, que descumpriu ordem judicial ("calma é o cacete!"); reclamou do sistema eletrônico de votação ("proibiram duvidar de urna eletrônica"); criticou quem cobra que ele se vacine ("deixa eu morrer"). Questionado por um apoiador sobre o caminhoneiro Zé Trovão, peça-chave em sua investida contra a democracia no 7 de setembro passado, quase deu um chilique.

Por um lado, ele teve que redobrar a dedicação em chamar a atenção. Afinal, o presidente planejava este como um grande dia para ele, com o aniversário de 58 anos do golpe militar e o anúncio da saída de seus assessores que vão disputar a eleição transformado em comício dentro do Palácio do Planalto.

Não contava, contudo, com a "Super Quinta" da política nacional, com Doria ameaçando desistir da pré-candidatura à Presidência da República para tentar fortalecer-se no PSDB e afastar traições dos correligionários - a velha "tática Jânio Quadros", de quem diz que vai sem querer ir de fato. Seguiu pré-candidato, gerando marketing, mas provocou emoções.

E Sergio Moro trocando o Podemos pelo União Brasil - legenda que não o quer, neste momento, como pré-candidato ao Palácio do Planalto. O mais provável é que saia para deputado federal por São Paulo, apesar da esperança ainda de ser ungido.

Para além de roubar a atenção do "seu" momento, essas movimentações deram um susto em Jair. O presidente defende sim a polarização com Lula, mas não interessa a ele que o pleito seja resolvido no primeiro turno, pois espera congregar o antipetismo em torno de si na segunda rodada.

A última pesquisa Quaest perguntou para quem afirmou preferir um candidato da terceira via quantos topariam votar em Lula se ele tivesse chance de liquidar a eleição no primeiro turno. Do total, 34% desses eleitores mudariam de voto em prol do petista. Entre os eleitores de Moro, seriam 21%, os de Ciro, 34%, e os de Doria, 22%, que optariam pelo ex-presidente.

Se a opção fosse a vitória de Bolsonaro no primeiro turno, 23% deixariam a terceira via e votariam nele, sendo 32% dos eleitores de Moro, 16%, dos de Ciro, e 14%, dos de Doria.

E, claro, há aqueles que vão anular o voto na falta de uma terceira via, o que beneficia o primeiro colocado.

Em uma eleição polarizada entre dois candidatos principais e mais alguns que, somando, não chegam a 10%, uma transferência de votos para os dois polos diante da desistência de concorrentes poderia ser o suficiente para dar a vitória a Lula no primeiro turno, se a eleição fosse hoje, claro, e considerando a mediana das pesquisas divulgadas. Pelo visto, Jair quer a terceira via longe, mas nem tão longe assim.