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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro colhe 29% que desconfiam de urna após plantar mentiras sobre TSE

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/05/2022 15h34

Pesquisa CNT/MDA, divulgada nesta terça (10), aponta que 68% dos entrevistados confiam nas urnas eletrônicas, enquanto 28,6% afirmam não confiar. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

O último levantamento do Datafolha apresentou números melhores quanto à credibilidade da urna eletrônica em março: 17% afirmavam que não confiavam nas urnas eletrônicas e 82% diziam confiar. A margem de erro era de dois pontos. As pesquisas não são comparáveis.

Jair Bolsonaro (PL) vem fazendo uma intensa campanha contra o sistema eletrônico de votação, acusando-o de fraude, apesar de nunca ter apresentado prova disso. O que não foi por falta de esforço: reportagem da Folha de S.Paulo, desta terça, mostrou que seu governo vem usando a estrutura de instituições públicas, desde 2019, para criar munição contra as urnas.

A dedicação do presidente, que gasta mais tempo tentando convencer os eleitores de que haverá uma fraude em outubro do que combatendo a inflação, ajuda a explicar a quantidade de brasileiros que desconfiam da urna eletrônica. E as consequências disso podem ser mais duradouras do que o próprio mandato de Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, o então presidente Donald Trump atacou o sistema eleitoral, acusando-o de fraude. Lá, boa parte da votação é feita através de cédulas de papel. A desconfiança plantada pelo republicano empurrou milhares de seus seguidores a invadir o Congresso em 6 de janeiro de 2021, ação que terminou com cinco mortos e feridos.

Quase um ano depois, uma pesquisa da Universidade de Massachusetts Amherst e do Instituto YouGov apontava que 22% dos eleitores acreditavam que a vitória de Joe Biden havia sido certamente ilegítima e 11% provavelmente ilegítima, enquanto 46% apontavam que ela foi com certeza legítima e 12% provavelmente legítima.

Dentre os republicanos, ou seja, 71% desconfiavam da legitimidade da eleição de Biden. Donald Trump conseguiu, dessa forma, plantar a dúvida sobre o sistema eleitoral de seu país, fraturando uma de suas mais antigas instituições junto àqueles que votaram nele. Garantiu, a um custo altíssimo para a República, um terreno político adubado para manter seus seguidores e se candidatar novamente em 2024.

Ataque de Bolsonaro contra urna pode levar seguidores a considerarem próximo governo ilegítimo

Bolsonaro segue o mesmo caminho. Pode não ter sucesso se, perdendo as eleições em outubro, tentar um golpe eleitoral, mas irá fraturar ainda mais as instituições ao usar a urna eletrônica como justificativa para não reconhecer o resultado.

Do seu ponto de vista, isso pode ajudar a questionar a legitimidade do governo de outro presidente eleito, a manter seus fãs mobilizados para voltar ao Palácio do Planalto quatro anos depois ou, ao menos, dificultar sua ida para a cadeia por um dos vários crimes que cometeu antes e durante o mandato.

Contadas à exaustão, as mentiras sobre a urna tornam-se farol para milhões. Ele não precisa que o Brasil inteiro acredite nelas, apenas que sejam repetidas por uma parcela, que irá às ruas para protestar por seu líder.

A diferença entre os cenários do Brasil e dos EUA é que a cumplicidade de setores das Forças Armadas, das polícias e do Congresso Nacional, somado à corrosão da credibilidade do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral por ação do presidente, farão com que a invasão do Capitólio norte-americano pareça um passeio de domingo no parque.