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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro inventa nova guerra enquanto cesta básica passa de R$ 800 em SP

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/05/2022 17h35

Bolsonaro tem um repositório ilimitado de cascatas para entreter o debate público brasileiro. A última foi uma representação na Procuradoria-Geral da República contra o ministro Alexandre de Moraes, apresentada poucas horas após a penúltima cascata flopar, ou seja, o STF arquivar um pedido de investigação contra Moraes. Jair tenta lançar suspeição sobre o ministro, que presidirá o TSE nas eleições.

Quem é bom de matemática há de se lembrar do que alertei neste cafofo ainda no ano passado: que à medida que chegássemos perto da eleição de outubro, a frequência com a qual Jair ataca o STF e o TSE passaria de aritmética para geométrica.

Claro que ele é golpista e está tentando minar a credibilidade do Tribunal Superior Eleitoral visando a promover uma balbúrdia no day after das eleições, como repito aqui, quase todo santo dia, a ponto de me sentir num Dia da Marmota protagonizado por Jair, que não tem 1% do charme de Bill Murray. Mas ele também quer muquiar uma inflação que corrói os salários, as pensões, as aposentadorias e os benefícios sociais dos brasileiros.

E, como o sujeito é presidente, não tem muito jeito, a imprensa tem que cobrir o que ele faz, até para não normalizar os ataques à democracia como se fossem parte da nossa paisagem, como a poluição da baía de Guanabara ou do rio Tietê.

A opção a isso seria cassar o mandato por qualquer uma das dezenas de pedidos de impeachment que foram apresentados contra ele. Mas quem teria coragem de sacrificar uma galinha dos ovos de ouro? O centrão na Câmara dos Deputados, certamente não.

Se ele se nega a parar de atacar as instituições, para gerar cortina de fumaça e, ao mesmo tempo, preparar terreno para uma insurreição de seus seguidores em outubro, acusando a Justiça Eleitoral de não ter credibilidade porque é comandada por "Xandão", também temos o dever de lembrar diuturnamente o que está sendo escondido com essa pataquada toda.

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) realiza mensalmente a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos desde 1959. A cesta de alimentos, composta por 13 produtos, são estipulados por região e por hábito alimentar.

(Se você der um Google, vai encontrar um monte de cestas mais baratas. Mas a do Dieese é a referência, pois é calculada com base na garantia de um mínimo de dignidade aos trabalhadores.)

Pois bem, a cesta básica em São Paulo ultrapassou, pela primeira vez, a marca de oito garoupas ou quatro lobos-guarás, atingindo R$ 803,99. Isso significa, 71,71% do salário mínimo nacional. Ou seja, para compra-la, o trabalhador ou a trabalhadora têm que ralar por 145 horas e 56 minutos. No ano, a sua variação já é de 16,43%.

Florianópolis (R$ 788), Porto Alegre (R$ 780,86), Rio de Janeiro (R$ 768,42), Campo Grande (R$ 761,73), Brasília (R$ 741,55), Curitiba (R$ 739,28) e Vitória (R$ 729,31) perfazem as capitais analisadas pela pesquisa com cestas custando acima de 700 mangos.

É isso o que ele não quer que a gente discuta porque é isso que o faz perder voto, de acordo com as pesquisas divulgadas periodicamente. Quando é colocado contra a parede, culpa as medidas de distanciamento social durante a pandemia, que, ao contrário dele, salvaram vidas, mas também a guerra na Ucrânia, os territórios indígenas, Leonardo DiCaprio e qualquer coisa aonde a sua imaginação o levar por esta situação. Menos a incompetência de um governo que sabe fazer campanha eleitoral, mas não sabe governar.

Acredita que consegue manter todo mundo entretido até agosto ou setembro, quando aposta que a inflação deve cair. De quebra, vai matando a democracia, com tanta porrada e bomba que lança.

Ele conclama os patriotas a defenderem a liberdade contra a tirania de ministros do STF e do TSE. Cascata pura. É sim dever patriótico de todo cidadão brasileiro que ama seu país lembrar diariamente, mesmo com a profusão de micaretas golpistas do governo, que a falta de políticas para combater a inflação tem nome e sobrenome.