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Leonardo Sakamoto

Em anúncio da morte de Bruno e Dom, governo omite ajuda indígena nas buscas

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/06/2022 12h10

Os indígenas do Vale do Javari foram os primeiros a realizarem buscas pelo indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips e também os que primeiro identificaram a região em que os corpos estavam, mas foram excluídos e ignorados na entrevista coletiva dada por forças de segurança na noite desta terça (15).

Representantes da Polícia Federal, do Exército, da Marinha, do Corpo de Bombeiros, das Polícias Civil e Militar gastaram boa parte do tempo louvando o próprio trabalho e a "integração" entre agências federais e estaduais (ignorando que, se o trabalho fosse de fato exemplar na região, os dois não teriam sido mortos). Mas nenhuma palavra foi dada sobre as entidades indígenas que garantiram o sucesso da operação até que a jornalista Katy Watson, correspondente da BBC para a América do Sul, afirmasse que "os indígenas ajudaram muito com as buscas, mas ninguém mencionou isso".

Mesmo assim o reconhecimento foi feito de forma incompleta e tímida. "De fato, foi um equívoco a gente não mencionar o trabalho realizado com os ribeirinhos e os indígenas locais, muitos deles nos acompanharam nas embarcações e nas aeronaves", afirmou o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, delegado Eduardo Alexandre Fontes.

Esse "equívoco" é, na verdade, paradigmático do que nós somos, de como excluímos os povos indígenas, e representativo do Brasil sob Bolsonaro.

Esse "equívoco" está presente na invasão de territórios indígenas para criminosos garimparem, extraírem madeira, caçarem e pescarem, matando seus moradores e, eventualmente, indigenistas e jornalistas, no meio do caminho e livremente. Está no roubo de suas terras, sob a justificativa de que faziam parte de um "deserto verde" a ser explorado por agropecuaristas; no furto de conhecimento médico ancestral desses povos - que se torna remédio no exterior sem pagar um centavo de royalties; no discurso do presidente da República, que usa o "marco temporal" como aríete para ignorar decisões judiciais, ou seja, para um golpe de Estado.

Na coletiva, após a intervenção da jornalista, ainda tentaram reduzir o impacto do esquecimento afirmando que o Exército tem indígenas como grande parte de seu efeito na Amazônia. Uma versão verde-oliva do "eu também tenho amigos negros".

Em nota divulgada também na noite desta terça, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) afirmou que participou ativamente das buscas desde que o desaparecimento dos dois.

"Fomos os primeiros a percorrer o rio Itaquaí atrás de Pereira e Phillips ainda no domingo, primeiro dia do desaparecimento dos dois. Desde então, a única instância que esteve ao nosso lado como parceira nas buscas foram os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM)", afirma.

Também dizem que foram os indígenas que encontraram a área que, depois, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, o Corpo de Bombeiros. E foi a Univaja que indicou às autoridades o perímetro a ser investigado em profundidade pelos órgãos estatais.

O problema é que esse "equívoco", o esquecimento da existência dos povos indígenas, não é um desvio, mas um problema estrutural. E ele vai continuar sendo cometido não apenas porque foi normalizado, mas também, porque é o centro de uma estratégia de pilhagem. Quando descoberta, ela questiona, falsamente assustada: "Indígenas? Que indígenas?"