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Leonardo Sakamoto

Para não se afogar já no 1º turno, Bolsonaro vê auxilio de R$ 600 como boia

JIM WATSON / AFP
Imagem: JIM WATSON / AFP
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/06/2022 19h34Atualizada em 24/06/2022 14h11

Lula venceria no primeiro turno, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (23), com 53% dos votos válidos, muito graças às famílias com renda de até dois salários mínimos. Não à toa, o governo Bolsonaro esteja tentando um aumento temporário de 50% no Auxílio Brasil, de R$ 400 para R$ 600, para durar até o final do ano. Assim, ele teria uma boia em que se agarrar em meio à inflação alta e à fome.

De acordo com o instituto, Lula marca 47% e, Jair, 28%, considerando os votos totais e todos os eleitores. Mas ganha do atual presidente por 56% a 22% entre as famílias que ganham até R$ 2.424/ mês. O quadro é de estabilidade frente aos 56% a 20% registrados em maio.

Já entre quem recebe os R$ 400 do Auxílio Brasil, Lula continua marcando 59% a 20%. Na amostra do Datafolha, o grupo mais pobre representa a maioria do país, com 52% da população.

Apesar de Bolsonaro ter recuperado terreno entre os mais ricos, os sulistas e os homens, os mais pobres continuam sendo a fortaleza de votos para Lula devido à memória da bonança econômica em seu governo. Em outras palavras, a lembrança da presença de "picanha e cerveja" na geladeira, como o próprio líder petista gosta de citar.

A inflação oficial cedeu um pouco no último mês, mas ela continua na casa de dois dígitos, corroendo o poder de compra de salários e dos benefícios sociais. Ao mesmo tempo, o tamanho do tombo na renda dos trabalhadores diminuiu, porém continua em 7,9% nos últimos 12 meses. Mesmo com a melhora nos índices, os preços seguem altos e a despensas vazias.

Até agora, a estratégia bolsonarista buscava ganhar tempo com temas relacionados a comportamento e costumes, como armas e aborto, enquanto o centrão no Congresso Nacional tentava reduzir na marra o preço dos combustíveis (planejando tirar recursos do ICMS que iriam para educação e saúde dos mais pobres) e na expectativa de que a inflação caísse naturalmente.

Nesta quinta, o governo sinalizou que deve mudar a estratégia, uma vez que forçar ICMS zero para combustíveis nos estados poderiam não produzir o resultado eleitoral desejado. A nova aposta é que aumentar o Auxílio Brasil em 50% causará mais impacto no grupo de eleitores que está dando uma vitória a Lula no primeiro turno.

Se Bolsonaro conseguir melhorar a situação econômica, sobrará mais espaço na agenda urgente dos mais pobres para que outras questões, como os temas relacionados a costumes, sejam levadas em conta na decisão do voto. Por enquanto, a sobrevivência se impõe e deixa todo o resto de lado.

A maioria das pesquisas tem mostrado que o governo já colheu o impacto que poderia com o Auxílio Brasil. Acredito que ele teve sim um ganho, caso contrário Bolsonaro teria ainda menos intenção de voto do que os 20% entre os beneficiários.

O Ipespe, na última pesquisa que divulgou antes da censura pelo mercado, perguntou quais candidatos teriam certas características. Lula teve um de seus melhores resultados na categoria "preocupação com as pessoas", com 45%, enquanto Bolsonaro amargou o seu segundo pior, com 24%.

A melhor avaliação do atual presidente junto ao público mais pobres ocorreu com o pagamento das seis parcelas de auxílio emergencial de R$ 600, em 2020. Agora, o governo deve tentar trazer de volta a percepção daquele momento para convencer que Bolsonaro se "preocupa com as pessoas". E, por isso, merece um segundo turno nas eleições. Se isso vai colar ou não, são outros 600.