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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao congelar CPI do MEC, Senado sugere a eleitores que ignorem corrupção

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/07/2022 16h47

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e lideranças da casa produziram um Grande Dia para Jair Bolsonaro ao empurrar a CPI do MEC para um fictício "depois das eleições". Do tipo, fiado só amanhã. Ao mesmo tempo, enviaram um recado aos eleitores: desconsiderem a corrupção na decisão do seu voto.

Pacheco afirmou que a investigação vai acontecer "permitindo-se a participação de todos os senadores e evitando-se a contaminação das investigações pelo processo eleitoral". Esse discurso inverte os fatos, pois é o silêncio da câmara alta do parlamento que está contaminando o processo eleitoral neste momento, negando informação relevante aos cidadãos.

Os eleitores têm o direito a saber a razão de o Ministério da Educação ter, ao que tudo indica, se transformado numa plataforma de financiamento de amigos e aliados do presidente num momento em que todos os recursos e energias deveriam estar sendo gastas para tentar compensar o imenso atraso educacional deixado pela pandemia de covid-19 em crianças e adolescentes.

Temos dois pastores, um deles amigo do presidente da República, que cobravam propina em dinheiro, ouro e bíblias para garantir acesso privilegiado de prefeitos ao Ministério da Educação e aos fundos bilionários em um verdadeiro gabinete paralelo. Ambos visitavam regularmente o Palácio do Planalto e não era para ver a leveza da obra de Oscar Niemayer.

Temos um presidente da República que, após a queda do ministro da Educação, pode ter interferido na investigação da Polícia Federal sobre o caso, alertando o seu ex-assessor de que haveria operação de busca e apreensão contra ele. Detalhe que o próprio ministro reconheceu em áudio que o presidente pediu para atender a vontade dos pastores.

Temos uma base aliada do governo no Congresso Nacional que também usou o fundo bilionário do ministério para atender a seus interesses políticos e econômicos, gerando denúncias pela imprensa de sobrepreço na compra de kits de robótica (ironicamente em cidades com escolas sem água ou luz) e de ônibus rurais.

E também temos um Senado que, com a manobra, agiu como puxadinho do Palácio do Planalto.

A cúpula do Senado prometeu instalar outras CPIs que estavam na fila como sinal de equilíbrio. Bobagem. Governistas propuseram outra, para apurar obras inacabadas de creches, escolas e universidades durante o governo petista, apenas para tentar inviabilizar a CPI do MEC.

Mas se há irregularidades, que se apure tudo - o que, sinceramente, não interessa aos governistas.

O que foi feito com dinheiro que deveria ter sido gasto em educação? Foi parar em alguma igreja? No bolso de empresários amigos de parlamentares? Acabou desviado para financiar caixa 2 na campanha deste ano? Virou leite condensado e pão francês? Sem informação, a tomada de decisão do voto fica prejudicada.

O Senado tem dois terços de seus membros que não vão buscar a reeleição este ano, ou seja, mesmo que atuem na campanha de outras pessoas, há pessoal suficiente para tocar uma comissão como essa. Se não, é melhor que tirem licença não remunerada.

Mais do que ajudar o presidente da República postergando revelações que lhe são incômodas, a impressão é que o congelamento da CPI do MEC também quer esconder o que parlamentares fizeram com o dinheiro da educação. O atraso na instalação da comissão acaba soando como decisão em causa própria.