Leonardo Sakamoto

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Opinião

Chuva mata, gera apagão, cala celulares e ensina SP sobre mudança do clima

Os seis mortos deixados pelo despreparo de São Paulo em lidar com eventos extremos deveriam ser o bastante para que priorizássemos a adaptação da capital e do interior para um futuro de mudanças climáticas tanto quanto a redução da nossa emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Infelizmente, não é assim que as coisas funcionam.

Todos os anos, tragédias climáticas, como deslizamentos e inundações, costumam ceifar com lama vidas pobres que moram nas periferias. Além disso, seis mortes passam despercebidas em um Estado de 44,4 milhões que viveu uma pandemia de covid-19 que só aqui matou mais de 181,6 mil.

Mas a lembrança do apagão, que atingia mais de 1,5 milhão de moradores mesmo passadas 27 horas da tempestade, incluindo bairros centrais da capital, pode funcionar como um aviso de que nossa vida mudou.

Moradores de regiões protegidas, que nunca precisarão se preocupar se o seu barraco está em área de risco, sentiram seu cotidiano mudar com a falta de energia. Tragédia das tragédias, não há eletricidade para recarregar o celular para checar zap e redes sociais, por exemplo. Em alguns locais, o apocalipse: a internet caiu.

Ao mesmo tempo, empresas e consumidores perderam produtos e geladeiras, médicos e pacientes sofrem com a falta de luz e de geradores decentes e crimes foram cometidos com as ruas mais escuras.

A tempestade encontrou cidades com milhares de árvores sem a devida manutenção, com raízes fragilizadas ou comidas por cupins. Tudo isso com a Enel, concessionária de serviços públicos, operando despreparada, como se o clima não tivesse mudado. Ventos acima de 80 km/h podem derrubar árvores, mas São Paulo padeceu pela incompetência e o despreparo.

Responsabilizar o poder público e o setor privado é parte importante da questão, mas não a esgota. Esquentamos a temperatura média do planeta, aumentando a frequência de eventos climáticos extremos. Tempestades, como a que ocorreu nesta sexta, farão parte do nosso novo normal.

Precisamos preparar São Paulo para essa nova realidade, cuidando principalmente de quem pode perder a vida. Mas também atuar sobre a responsabilidade a cidade, e, portanto, nossa, para o aquecimento do planeta.

Por exemplo, parte da madeira extraída da Amazônia vem para a construção civil do Estado e somos grandes consumidores da carne bovina e de matérias-primas produzidas por lá, como minérios e soja. Atividades conectadas com desmatamento e queimadas. Sem contar que hidrelétricas são construídas, impactando o clima, para nos abastecer de energia.

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Ao mesmo tempo, milhões de escapamentos de nossos carros, motos e caminhões pioram o efeito estufa, enquanto o aumento da malha de transporte de massa sobre trilhos segue devagar quase parando. E temos uma cobertura vegetal pequena e malcuidada em comparação ao nosso tamanho.

São Paulo é vítima do clima, mas também seu algoz. Até agora, a incompetência do poder público e do setor privado em preparar a capital e o Estado era mais sentida por apenas uma parte de seus habitantes. Se mortes não nos compadecem, que cada apagão após tempestade nos lembre que o tempo para medidas concretas está se esgotando.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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