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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Série sobre caso Weinstein mostra hesitação de chamar "estupro" pelo nome

Harvey Weinstein chega ao tribunal de Nova York para julgamento - REUTERS/Jeenah Moon
Harvey Weinstein chega ao tribunal de Nova York para julgamento Imagem: REUTERS/Jeenah Moon
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

13/09/2021 11h58

Roman Farrow foi autor de uma das reportagens que expuseram as graves acusações de estupro contra o produtor cinematográfico Harvey Weinstein, em 2017. O seu trabalho ajudou a dar impulso ao movimento #MeToo, encorajando mulheres a denunciarem outras situações de abuso sexual.

Um aspecto crucial da reportagem, revelado em detalhes numa série da HBO, lançada este ano, foi a decisão de usar a palavra "rape" ("estupro") para caracterizar o que Weinstein fez. Parte dos editores da revista que publicou a denúncia defendia que Farrow usasse a palavra "assault" (tentativa de agressão).

No livro "Operação Abafa", lançado em 2019, Farrow descreve os bastidores da apuração da reportagem que a revista "The New Yorker" levou às bancas em 10 de outubro de 2017. O livro foi a inspiração para a série "Catch and Kill: the podcast tapes", na qual Farrow conduz entrevistas com fontes e jornalistas que o ajudaram.

Farrow conta que os advogados de Weinstein estavam pressionando a revista a não usar a palavra "estupro". "Não há dúvida de que as acusações caracterizam estupro", diz ele.

Os depoimentos, exibidos no quinto episódio, mostram o papel decisivo da jornalista Deirdre Foley-Mendelssohn, número dois no comando da redação da "New Yorker". Ela conta que estava nervosa ao entrar na sala do diretor de redação, David Remnick, para discutir o assunto.

"Elas chamam o que sofreram de estupro. Se não usarmos, vamos estar 'limpando', enfraquecendo as acusações. Não vamos chamar uma coisa pelo que ela é", disse a jornalista. No seu depoimento, Remnick confirma: "Deidre disse que precisávamos chamar as coisas pelo nome certo. Elas estavam certas e mudamos".

Este bastidor é revelador dos cuidados que envolvem algumas decisões jornalísticas. No Brasil atual, há nítida hesitação em chamar algumas coisas pelos seus nomes. No caso do governo Bolsonaro, por exemplo, como vimos na semana passada, veículos ainda evitam nomear como "golpistas" frases ou gestos que caracterizam violação à Constituição. Ou falar claramente que o presidente "mente" quando ele diz inverdades em público.