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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com podcast, Mano Brown se revela o melhor entrevistador do ano

Mano Brown durante a gravação do podcast "Mano a Mano" - Jef Delgado/Divulgação
Mano Brown durante a gravação do podcast "Mano a Mano" Imagem: Jef Delgado/Divulgação
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

30/09/2021 13h30

Lançado no final de agosto, o podcast "Mano a Mano", do Spotify, se tornou rapidamente um acontecimento em alguns meios, em especial, entre ativistas sociais e jornalistas. O programa comandado pelo rapper Mano Brown traz semanalmente bate-papos interessantíssimos com figuras que despertam a curiosidade do entrevistador, pessoas que ele admira e também pessoas que ele não entende.

Um tema recorrente nas conversas, assim como nas letras dos Racionais, é a problemática racial — a vida na periferia, a insuficiência de oportunidades, a dificuldade de acesso à educação, o preconceito, a falta de representatividade, o racismo estrutural, enfim.

As primeiras cinco entrevistas deram uma boa ideia do leque de interesses de Brown, uma figura notoriamente de esquerda - da música à política, passando pelo futebol e a religião. Começou com a rapper Karol Conká, prosseguiu com o médico Drauzio Varella, depois o ex-presidente Lula, três ex-jogadores do Santos e o pastor Henrique Vieira.

Mas foi a sexta entrevista, divulgada nesta quinta-feira (30), que tornou ainda mais explícito o projeto de "Mano a Mano", além de deixar evidente, se ainda houvesse dúvidas, o talento de Brown como entrevistador. Ele recebeu o vereador Fernando Holiday (Novo-SP), um político negro, ex-apoiador de Bolsonaro, situado no campo da direita e notório adversário de ações afirmativas, como cotas raciais na educação.

Em uma das primeiras falas, Brown revelou que vários amigos foram contrários à ideia de entrevistar Holiday. Mas ele achou que valia a pena confrontar alguém com visões radicalmente diferentes das suas. O vereador falou de sua infância humilde, criado em conjunto habitacional em São Paulo, do fato de não ter conhecido o pai, que desapareceu quando ele era um bebê, da sua paixão pela cantora Billie Holiday e a admiração por Barack Obama.

Brown então disse:

Apesar de discordar das coisas que você pensa, tenho que admitir que você é um símbolo também. Jovem negro que pensa diferente do que acharia certo. Falei: quero conversar com ele. Porque eu prefiro acreditar que você seja um jovem idealista, ou religioso, ou verdadeiro e puro, e não um estrategista político. Seria mais fácil pra mim te ver assim, não como um personagem. Às vezes, (vejo) alguns ataques que você faz a pessoas que eu conheço, e sei que não são nada daquilo, e talvez você precisasse conhecer também. Talvez as pessoas não se conheçam verdadeiramente.

Holiday expôs a sua posição contra cotas raciais, a seu ver ineficientes, e a favor de "cotas sociais". Mas reconheceu: "Com as cotas raciais é inegável que você aumentou a inclusão do negro. Isso é resultado do ativismo negro, reconheço. O que eu acredito que isso é uma inclusão de péssima qualidade. A solução que eu trago é mais lenta, mas de mais qualidade".

Sagaz, Brown observou: "Você é jovem. Acredito que você vai mudar. Porque não é possível amar Billie Holiday, se emocionar com negros enforcados e ser contra cotas. Não é questão de misericórdia ou assumir que é inferior. São dados".

Após o vereador defender o liberalismo, Brown disse: "Você pega uma criança que tem problemas de subnutrição e uma mais forte, que luta judô. Pega um chocolate, joga para o alto e faz aleluia. E vê quem pega. Liberalismo é isso pra mim. É tosco, mas é como vejo". Holiday respondeu: "Nós liberais comunicamos mal o que pensamos".

O político também fez uma autocrítica sobre a sua atuação na campanha eleitoral de 2018, como integrante do MBL: "Eu ajudei a reduzir a qualidade do debate público. Percebi isso depois da eleição do Bolsonaro. Reduzia os debates a memes", disse o vereador.

Brown terminou o programa de forma paternal, defendendo a ideia de que o diálogo pode ajudar a diminuir as discordâncias: "Eu gostaria que você repensasse sobre as coisas que falou. Que procurasse se informar sobre as coisas que você não sabe. Espero que todas as inteligências negras trabalhem em comunhão". Uma utopia.

Artista avesso a entrevistas, Brown tem se revelado um grande entrevistador, a maior revelação de 2021. Curioso, bem preparado, encontrou nesta mídia, o podcast, um canal muito eficiente para talk shows.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL