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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Inventando Anna: condenada recebeu dinheiro da Netflix para contar história

Julia Garner interpreta Anna Sorokin, que se faz passar por Anna Delvey, na série "Inventando Anna", da Netflix - Nicole Rivelli/Netflix
Julia Garner interpreta Anna Sorokin, que se faz passar por Anna Delvey, na série "Inventando Anna", da Netflix Imagem: Nicole Rivelli/Netflix
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

14/02/2022 13h13

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Lançada na última sexta-feira (11), "Inventando Anna" é uma minissérie de ficção que recria uma história real. Produção de Shonda Rhimes para a Netflix, conta a história de uma jovem russa que se passou por milionária alemã em Nova York, enganando ricos e famosos entre 2013 e 2017, até ser presa.

A fonte principal da história é uma reportagem publicada na revista "New York" em 2018. Rhimes transforma esse limão numa limonada de nove episódios com uma hora de duração cada. É excessivo, mas ela consegue manter o espectador preso à tela, o que não surpreende quem conhece o seu portfólio, que inclui, entre outros, "Grey's Anatomy", "Scandal" e "How to Get Away with Murder".

O que causa espanto em "Inventando Anna" é o fato de a Netflix ter pago US$ 320 mil (cerca de R$ 1,6 milhão) à mulher condenada criminalmente por alguns dos golpes relatados na minissérie. Segundo o site Insider, Anna Sorokin usou a maior parte do dinheiro recebido pela plataforma de streaming para restituir o que devia aos bancos e para pagar multas ao Estado.

Em maio de 2019, quando se soube que a Netflix havia feito esse pagamento, a Justiça de Nova York congelou os fundos de Sorokin com base na chamada lei "Son of Sam", criada justamente com o objetivo de impedir que criminosos lucrem com seus crimes. A lei foi aprovada em 1977, depois que editores ofereceram dinheiro ao serial killer David Berkowitz, conhecido como "Son of Sam", para um livro de memórias sobre seus crimes.

Porém, quando soube que Sorokin estava usando os recursos da Netflix para pagar suas dívidas, um juiz determinou que a conta bancária fosse "descongelada".

Ainda assim, resta um outro problema, de natureza ética: é correto pagar a um criminoso para contar a sua história? Decorrente desta questão, há uma outra: pagando Anna, como acreditar que a história está sendo contada corretamente, sem algum viés favorável à condenada que recebeu dinheiro por isso?

Em sua defesa, Shonda Rhimes pode dizer que todo episódio começa com um aviso enorme, alertando: "Essa história é completamente verdadeira, exceto pelas partes que são totalmente inventadas".

Uma advogada de Sorokin disse ao Insider que ela reconhece as dívidas que fez, mas não considera que roubou ninguém. Segundo a advogada, o caso nunca deveria ter sido considerado uma questão criminal, mas sim civil - um caso de uma pessoa devendo dinheiro a outra.