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Reinaldo Azevedo

Na live do Osama, Bolsonaro faz discurso terrorista e repete "meu Exército"

Bolsonaro ao lado de João Roma, o novo candidato a Leporello do Don Giovanni da morte. Um espetáculo grotesco - Reprodução/Youtube
Bolsonaro ao lado de João Roma, o novo candidato a Leporello do Don Giovanni da morte. Um espetáculo grotesco Imagem: Reprodução/Youtube
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

02/04/2021 07h49

Não tivesse o país batido uma nova modalidade de recorde trágico nesta quinta — a média móvel diária de mortes por covid-19 ficou acima de 3 mil: 3.119 —, talvez fosse o caso de ignorar o conteúdo da live de Jair Bolsonaro, aquela ladainha bisonha que lembra Osama bin Laden em seu cafofo a amaldiçoar o Ocidente... O presidente, no caso, amaldiçoa o bom senso e a ciência. E voltou a falar em "meu Exército". "Seu" uma ova! E o Don Giovanni da Morte tem um novo candidato a Leporello. João Roma, ministro da Cidadania, estava presente. Nota-se que tenta inaugurar um novo estilo na arte da sabujice: o puxa-saco criterioso. Vamos ver.

Cidades, país afora, estão tendo dificuldade para enterrar os seus mortos, dado o número de óbitos. Bolsonaro não está nem aí. Voltou a atacar os governadores e os prefeitos. E o fez a seu modo, com acusações irresponsáveis, sem provas, e mandando a ciência às favas.

Afirmou que "bilhões de reais" foram enviados a Estados e municípios, mas que "alguns ou muitos governadores e prefeitos usaram esses recursos para pagar folha atrasada, botar suas contas em dia e não deram a devida atenção para a saúde".

Pra começo de conversa: "alguns ou muitos"? Quais? Ele, obviamente, não sabe porque está falando o que lhe dá na telha. O negócio é se livrar de responsabilidades. Bolsonaro finge que a compensação de arrecadação do ICMS que a União mandou aos Estados deveria ser integralmente aplicada no combate à pandemia.

Trata-se de uma mentira grotesca. Ora, as unidades da federação sofreram um rombo no caixa. E, pois, tinham dificuldades para arcar com todas as despesas. O dinheiro não contava com o carimbo único da Saúde. O que ele diz em tom de acusação era parte do que foi justa e corretamente pactuado no Congresso.

MEDIDAS DE RESTRIÇÃO E DISCURSO TERRORISTA
Afirmou o presidente:
"No momento, em especial quando você vê aquela grande TV, conhecida como TV Funerária também -- o tempo todo só quer saber de mortes; não fala em número de curados -- e falando como é que está a capacidade de UTIs nos seus respectivos Estados... Ah, tá com 90%, tá com 95%. E, em função disso, justifica, para eles, medida de isolamento. No meu entender, está equivocado"

Que soma de asnices! Dane-se o seu entendimento! Que expertise técnica tem para falar a respeito? Os vários graus de restrição de circulação estão entre as medidas comprovadamente eficazes para conter a contaminação. Ademais, quando se fala de ocupação de UTIs na casa dos 90% nos Estados, isso quer dizer que pessoas já estão morrendo à espera de leitos em razão da dificuldade de transferências.

E foi nesse ponto que o mais novo Leporello entrou com seu servilismo matizado:
"Até porque, presidente, uma coisa é isolamento, e outra coisa é distanciamento (...) Usar máscara, álcool em gel, é uma conduta necessária. Mas isolamento, impedir que pais e mães de família, que, muitas vezes estão em situação precária, morando debaixo de uma Brasilit, não possa (sic) conseguir o sustento de seus filhos é uma coisa bem diferente".

Pronto! O ministro ajudou a demonizar os governadores e os prefeitos, mas de um jeito mais manso, deixando claro ser favorável ao distanciamento, seja lá o que isso signifique na prática, uma vez que está endossando o discurso do chefe, contrário a qualquer coisa que não seja uma vida normal, o que, nestes dias, é uma tese criminosa.

Pior: Bolsonaro pintou um quadro dramático de fome e miséria -- que ele atribui, de modo insano, às medidas restritivas impostas pelos governadores -- e voltou a acenar com a possibilidade de uma revolta popular. O modo como o faz fica a um palmo do convite à ação. E então disparou:
"Há um sentimento cada vez maior de revolta junto a essas pessoas. Repito aqui: eu temo por problemas sociais graves no Brasil. E como é que você vai combater isso? Eu quero repetir aqui: o meu Exército brasileiro não vai às ruas para agir contra o povo. Ou para fazer cumprir decretos de governadores e prefeitos. Não vai. O meu Exército, enquanto eu for presidente, não vai."

Os Estados estão hoje sob o assédio de arruaceiros. Tentam, de modo reiterado, jogar a população contra os governadores e fazem proselitismo aberto em favor de motins nas PMs. E, então, entra Bolsonaro: "se isso acontecer, o meu Exército não vai fazer nada".

"Seu" uma ova! O Exército pertence ao Estado brasileiro.

Ele comentou rapidamente a demissão do general Fernando Azevedo e Silva e a troca de comando nas Três Forças, negando que tenha sido um capítulo da tentativa de politização das Forças Armadas, Fingindo-se de desentendido, disse que essa politização se deu no governo Dilma, que nomeou Jaques Wagner ministro da Defesa.

Ainda sobre os militares, afirmou: 'Nosso jogo é dentro das quatro linhas da Constituição. Nós não vamos sair desse quadrado". Poderia acrescentar: "Infelizmente, é assim. Os militares não toparam as minhas maluquices".

ATAQUE À IMPRENSA
Na live em que voltou a defender tratamento precoce com hidroxicloroquina, amparando-se nas vergonhas de que é capaz o Conselho Federal de Medicina, o presidente atacou a imprensa, parabenizando os jornalistas pelo Dia da Mentira. Em seguida, comemorou a queda de lucro das empresas de comunicação.

Aí o Leporello da hora entrou em campo para dizer que até existem os bons jornalistas.

Devem ser aqueles que engraxam os sapatos de Bolsonaro. Com altivez, claro, claro...