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Reinaldo Azevedo

A falta de pudor da extrema direita. E Lula dá aula básica de capitalismo

Deltan Dallangol, que chama a farsa do PowePoint de "erro de cálculo", e Bolsonaro abraçado a André Mendonça. O comportamento é absolutamente impróprio - Zanone Fraissat/Folhapress; Alan Santos/PR
Deltan Dallangol, que chama a farsa do PowePoint de "erro de cálculo", e Bolsonaro abraçado a André Mendonça. O comportamento é absolutamente impróprio Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress; Alan Santos/PR
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/12/2021 02h02

É fato que, em algum momento, perdemos, como país, a trilha da institucionalidade. E, em muitos casos, a da vergonha. É preciso que a recuperemos para sair do atoleiro. Vamos conseguir? Adoraria ter a resposta, mas não tenho. Os sinais de corrosão estão em toda parte. Querem ver?

Jair Bolsonaro comemorou a aprovação do nome de André Mendonça para o Supremo na solenidade de lançamento do auxílio-gás com as seguintes palavras:
"Hoje em dia, não mando nos dois votos do Supremo, mas tem dois ministros que representam, em tese, 20% daquilo que gostaríamos que fosse decidido e votado dentro do Supremo Tribunal Federal".

Há certamente uma diferença entre mandar e se deixar mandar. O efeito prático pode ser o mesmo. Mendonça foi ao Palácio agradecer ao presidente, que assinou o ato de sua nomeação. Na sala, fazendo nada, como num encontro na cozinha da família, vê-se o vereador Carlos Bolsonaro.

Em uma das fotos divulgadas, o ministro já nomeado ri à larga em companhia do presidente. Em outra, dá um abraço fraterno e emocionado na primeira-dama, Michelle. Pouco importa a amizade que tenha com a família presidencial. Trata-se de proximidade e exposição de intimidade impróprias. Ainda que não se aposte na independência de Mendonça — e estou entre os que não apostam —, deveriam a menos cuidar do decoro. Mas fomos nos desacostumando...

Mendonça fez até um pequeno discurso sobre a nomeação:
"[Quero] dizer que, certamente, é uma das assinaturas mais importantes de um presidente da República. E uma missão confiada a mim, através dos votos por ele recebidos. E também por acreditar no meu potencial para ajudar o nosso país, o que restou confirmado ontem no Senado Federal. Muito obrigado a todos e que Deus abençoe o nosso país".

"Missão"? Qual missão? Reitero: pelo meu crivo, Mendonça não teria passado. E parte considerável do que disse aos senadores não coincide com a sua atuação danosa como auxiliar do presidente. No dia seguinte à aprovação do seu nome para o STF, ele já se parecia, exceção feita ao cabelo, com aquele que aprendemos a ver no trabalho de degradação do Ministério da Justiça e da Advocacia Geral da União.

É de degradação que falo? Os outros "10%" de Bolsonaro no Supremo, Nunes Marques, resolveu evidenciar uma vez mais a sua fidelidade ao chefe. Seguia no plenário virtual o julgamento de liminar de Roberto Barroso que suspendeu portaria absurda de Onyx Lorenzoni, que proíbe as empresas de dispensar quem não se vacina ou de exigir atestado de vacinação na contratação. A determinação fere matéria já julgada pelo tribunal. O placar era de quatro a zero em favor da liminar. Kássio Concá, no entanto, pediu destaque para levar o tema à votação presencial. Deus do céu! Uma cepa nova ameaça o mundo, e o Supremo se vê na contingência de votar o já votado.

CHOQUE DE IMPOSTURAS
É de falta de pudor que falamos? Na "live" desta quinta, Bolsonaro deu pouca importância à sua filiação ao PL. Preferiu atacar Sergio Moro, seu adversário na extrema direita. Usar a estrutura do governo, e ele usa, para atingir oponentes é, de saída, um ato de improbidade. E daí? Sabe que nada vai acontecer. Nem é o que pratica de pior.

Disse que seu ex-ministro da Justiça é um "mentiroso deslavado" e "um palhaço, que faz campanha na base de mentiras". E ainda ironizou: "Aprendeu rápido, hein?"

Os palhaços não merecem ter sua figura associada a Moro, é claro! Em que o ex-ministro teria mentido? Em uma entrevista a uma rádio no Paraná, o pré-candidato do Podemos afirmou que o presidente comemorou quando Lula deixou a cadeia.

Trata-se, com efeito, de uma mentira, mas que não só é de Moro. Também o subjornalismo que lhe dá suporte investe nessa fantasia. A tese, que já critiquei aqui e em toda parte, assegurava que Bolsonaro preferiria disputar o segundo turno com Lula em 2022. Por que preferiria?

Atenção! Lula nunca apareceu atrás de Bolsonaro em nenhuma pesquisa, agora ou antes. O ex-presidente liderava as intenções de voto mesmo quando estava na cadeia. O "Mito" só assumiu a dianteira quando o nome do petista deixou de ser testado porque estava claro que não iria disputar a eleição de 2018.

Por que comemoraria? Com efeito, trata-se de uma mentira. Mas Bolsonaro deveria, é evidente, contestá-la sem usar dinheiro público.

DALLAGNOL E O ERRO DE CÁLCULO
Falamos de lavajatismo, falta de pudor e degradação? Pois é. O ex-procurador da República Deltan Dallagnol, que coordenou a Lava Jato em Curitiba e agora é pré-candidato a deputado federal pelo Podemos, partido de Moro, fez uma afirmação estupefaciente num bate-papo no podcast Flow.

Chamou o espetáculo vergonhoso e ilegal do famoso "Power Point" de "erro de cálculo". Logo, admite o que reportagem do Intercept Brasil já havia demonstrado: tratava-se de um "cálculo".

Afirmou:
"Erro de cálculo nosso? Foi um erro de conta nosso sobre o modo que pode ter gerado uma interpretação equivocada por parte da sociedade, mas a nossa intenção era de fazer exatamente o que a gente tinha feito em casos anteriores".

Mais:
"A gente sempre tentou ser didático. A gente não acha que a pessoa tem que ter feito direito para entender de corrupção... a gente quer ser simples e levar informação simples para que a pessoa entenda qual é o problema e qual é a solução".

Dallagnol só não contou que a Lava Jato havia acabado de apresentar uma denúncia contra Lula e que as acusações que fazia no PowerPoint não estavam no documento porque, obviamente, ele não dispunha nem de indícios. Produzia uma peça acusatória de baixa literatura policial. Também se esqueceu de dizer que não apresentou as provas nem do que constava da denúncia, o que foi admitido por Sergio Moro em embargos de declaração.

O Flow deixa o entrevistado falar o que quiser. É parte da atração, e não estou sendo judicioso a respeito. A conversa fica agradável, flui e atrai um público imenso. Quando o assunto é política, infelizmente, a mentira pode passar sem contestação. O que escrevo acima não é uma opinião, mas um fato.

Transcrevo trecho de uma das reportagens do Intercept sobre as conversas de Dallagnol com Moro, em que se fala do PowerPoint:
Preocupado com a repercussão pública de seu trabalho - uma obsessão do procurador, como demonstra a leitura de diversas de suas conversas -, ele prossegue: "Ainda, como a prova é indireta, 'juristas' como Lenio Streck e Reinaldo Azevedo falam de falta de provas. Creio que isso vai passar só quando eventualmente a página for virada para a próxima fase, com o eventual recebimento da denúncia, em que talvez caiba, se entender pertinente no contexto da decisão, abordar esses pontos", escreveu a Sergio Moro.
Dois dias depois, Moro afagaria o procurador: "Definitivamente, as críticas à exposição de vcs são desproporcionais. Siga firme." Menos de um ano depois, o juiz condenaria Lula a nove anos e seis meses de prisão
.

Que honra ter sido atacado desde sempre por Dallagnol! Vejam aí o que ele omitiu no Flow. Admite a ausência de provas e pede a Sergio Moro que incorpore o PowerPoint ao receber a denúncia. Vergonho! Escandaloso! Ilegal!

E Moro incorporou. Não só ali. A sua sentença é a repetição em prosa do quadro alucinado de Dallagnol. Reitere-se: também as provas da denúncia propriamente jamais foram apresentadas. Por isso não aparecem na sentença de Moro.

UM POUCO DE CAPITALISMO
Lula também participou de um podcast nesta quinta: o Podpah. Afirmou o seguinte:
"Falta dinheiro para as pessoas comprarem. Falta dinheiro. Se você der um pouquinho de dinheiro, as pessoas vão comprar. Quando nós criamos o Bolsa Família, o que é que a elite brasileira falava? "Ah, o Lula tá criando vagabundo. O Lula tá criando exército de desempregados. Essas pessoas não querem mais trabalhar. Essas pessoas agora só querem fazer filho para poder ganhar mais. Sabe o que acontece? É a falta de crença no povo pobre. É a falta de respeito às pessoas pobres. Porque todo mundo acha que pobre é imbecil, é ignorante. E tá cheio de gente que acha que o cara é pobre porque ele quer. Não. Se ele pudesse, ele ganhava mais. Se ele pudesse, ele faria muito mais coisa. Porque o ser humano quer ascender na vida social. Ele quer crescer. Ele quer evoluir. Sabe? Ninguém quer comprar um carro velho. Quer comprar um carro novo. E bom! A gente não quer ir numa praia poluída. Quer ir numa melhor. Só que as melhores, às vezes, não chegam pra nós."

Anteontem, Paulo Guedes associou o ex-presidente a "mãos sujas de graxa", em tom pejorativo.

Se Guedes — ou qualquer outro suposto liberal — soubesse defender o capitalismo com a clareza e a simplicidade com que Lula o faz, talvez esse governo fosse menos pernicioso, e o Brasil, um lugar um pouco melhor para os pobres.

E isso é apenas um fato.