PUBLICIDADE
Topo

Ronilso Pacheco

Covid-19: pastores bolsonaristas têm responsabilidade no número de mortos

10.jul.2019 - Jair Bolsonaro ao lado do deputado pastor Marco Feliciano (Pode-SP); o presidente participou de eventos com deputados evangélicos na Câmara horas antes da votação da reforma da Previdência - Evaristo Sá/AFP
10.jul.2019 - Jair Bolsonaro ao lado do deputado pastor Marco Feliciano (Pode-SP); o presidente participou de eventos com deputados evangélicos na Câmara horas antes da votação da reforma da Previdência Imagem: Evaristo Sá/AFP
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

30/08/2020 04h00

No dia 04 de abril, Bolsonaro fez uma convocação para que as pessoas de fé fizessem um jejum pelo Brasil. A convocação virou uma "missão" das lideranças evangélicas conservadoras que apoiam Bolsonaro. No mesmo dia, um vídeo de convocação passou a circular nas redes sociais.

Durante a convocação, Silas Malafaia usa seu talento retórico para falar em tom profético: "depois disso aí, vai vir um tempo de prosperidade para o Brasil que nunca houve, e todas as previsões catastróficas estão aniquiladas no nome de Jesus".

Um profeta da mesma escola de Malafaia, o deputado, e também pastor, Marco Feliciano parece dizer o mesmo, no mesmo tom, com outras palavras: "para que essa praga que veio sobre o mundo cesse, e para que todas as previsões ruins aqui no Brasil feitas caiam por terra".

No dia 05 de abril, o jejum acontece. Neste dia, o Brasil contava 487 mortos por covid-19, dois estados, Acre e Tocantins, não tinham registrado nenhuma morte, e o país tinha um ministro da Saúde. Quatro meses depois, em agosto, o Brasil alcançava a surpreendente marca dos 100 mil mortos, todos os estados registram mortes, e o país, após a renúncia de dois ministros da Saúde, não possuía um titular para a pasta. Eu não sei se eles imaginavam um cenário pior, mas certamente a catástrofe não foi aniquilada, e nem as previsões ruins caíram por terra. As previsões se confirmaram.

Fosse outra situação, ou outro contexto, poderia soar cômico. Mas não tem como. É apenas trágico. É trágico que homens imbuídos de uma responsabilidade religiosa, e que tenham sob sua autoridade e "cuidado" tantas vidas, sejam tão negligentes e banalizem tanto a fé de seu povo e os símbolos desta fé.

No momento, o Brasil conta mais de 120 mil mortos, e, se existe alguém próspero financeiramente, são exatamente estes pastores. Malafaia, Macedo, Valdomiro e R. R. Soares seguem tão ricos e vivos hoje, quanto estavam há quatro meses atrás. Para mais de 120 mil pessoas, no entanto, as previsões catastróficas estavam certas, e, se tivessem sido levadas à sério, muitas vidas teriam sido poupadas.

No vídeo postado em 04 de abril, 24 líderes se revezaram em convocar a população para jejuar. Com pouquíssimas exceções, os mais conhecidos líderes evangélicos bolsonaristas estavam lá. Silas Malafaia, R. R. Soares, Edir Macedo, Renê Terra Nova, Estevam Hernandes, André Valadão, Hernandes Dias Lopes, Jorge Linhares, Juanribe Pagliarim, e outros. Curiosamente, ou não, 24 homens. Nenhuma mulher participa da convocação.

Por influência direta de suas afirmações e orientações, muitas pessoas que os tem como referência e liderança, baixaram a guarda, desprezaram os riscos. Afinal, os números ainda eram relativamente baixos, se comparados com a Europa e Estados Unidos, e talvez "a fé resolveria". Ao invés de usarem sua autoridade para recomendar cuidado e proteção, incentivaram a exposição e a desconfiança.

Num ato de total irresponsabilidade e desrespeito, Marco Feliciano chegou a twittar que o número de óbitos havia diminuído na segunda-feira, 06 de abril, e isso seria consequência do jejum de domingo. Esse tipo de manipulação tosca e descompromissada com a vida alheia, diz muito sobre Feliciano e o uso que faz da religião em defesa do governo Bolsonaro.

Vários pastores, pastoras, lideranças evangélicas, e não apenas progressistas ou de esquerda, denunciaram o uso político do jejum. Era nítido o uso da autoridade pastoral dos bolsonaristas para manipular o povo evangélico em uma falsa disputa entre "o exército de Cristo" e aqueles que que só queriam o caos, sem fé, que torciam para o pior no país.

Quando o Brasil bateu os 100 mil mortos, não houve uma única palavra de ânimo e consolo de nenhum dos líderes do jejum. O silêncio tão grande quanto vergonhoso. Lavaram as mãos diante de um número de mortos 99.513 vezes maior do que quando eles fizeram suas profecias e incitaram seu "rebanho" a relaxar das medidas, porque Deus "sararia a nação". No ponto em que estamos agora, todos eles também tem responsabilidade.

Profeta mesmo foi Jesus, que falou bem claramente sobre os pastores bolsonaristas no capítulo 12 do Evangelho de Marcos: "eles gostam da visibilidade, lugares de honra e banquetes palacianos, mas devoram as casas das viúvas, e fingem fazer longas orações". Ouçam as previsões catastróficas. Esta profecia pode salvar muito mais vidas.