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Ronilso Pacheco

Melhor viúva que divorciada: Flordelis e o preço da ética fundamentalista

A deputada Flordelis e o marido Anderson, assassinado em junho de 2019 - Reprodução/Instagram
A deputada Flordelis e o marido Anderson, assassinado em junho de 2019 Imagem: Reprodução/Instagram
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

26/08/2020 04h01

"Separar dele não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus". Esta é uma das mais marcantes frases da pastora e deputada federal Flordelis, nas mensagens ouvidas pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), que indica que a pastora arquitetou o plano de assassinato de seu marido Anderson do Carmo.

É possível que, para muitos, a frase soe apenas como uma forte demonstração de hipocrisia. Provavelmente é isto também. Mas ela também nos ajuda a pensar como este universo religioso fundamentalista relativiza a vida em nome de aparências e rigor moral impraticável, que arrasta em torno de si sofrimento, violência e desigualdades.

Com fundamentalismo, no caso evangélico, eu estou me referindo a esta relação com os textos bíblicos que os tomam como verdade absoluta não apenas para si, mas para todo mundo, o que faz com que estas verdades sejam impostas aos outros; ao rigor moral que é insensível a contextos e complexidades da vida; e à presunção de manter uma vida pública sem erros, para sustentar uma superioridade moral pública perante as pessoas e, evidentemente, poder julgá-las.

O caso de Flordelis é uma das provas mais dramáticas de que esta ética fundamentalista não se sustenta, e não torna pessoas e sociedade melhores. Ela é tão violenta com os próprios fundamentalistas quanto com aqueles e aquelas que eles desejam submeter ao seu padrão moral, vigilância e controle. Ela é exercida pela via da agressividade e repressão, ela só é administrada com dissimulação e hipocrisia.

Pense por quantos anos Flordelis e Anderson performaram a imagem do casal perfeito, quantos casais eles aconselharam e oraram, quantos casamentos celebraram. Pensem por quantas vezes eles também usaram a interpretação fundamentalista do texto do Evangelho de Mateus em que Jesus diz que "o que Deus uniu, o homem não deve separar", para constrangerem casais a permanecerem unidos, à despeito de a relação realmente ter se tornado inviável.

Ao dizer "O que Deus uniu, o homem não deve separar", Jesus está, sobretudo, protegendo as mulheres, que podiam ser abandonadas por seus maridos por qualquer motivo, desde ficar com uma mulher mais jovem quanto até simplesmente "enjoar". Não se trata de uma condenação expressa do divórcio em si mesmo, mas sobre como aqueles homens banalizavam a relação. Não por acaso, a questão "divórcio" sempre foi decidido pela autoridade masculina.

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Escândalo do divórcio X "paz" da vida como viúva

A interpretação fundamentalista e equivocada deste texto tem sido responsável por sustentar relacionamentos que se tornaram inviáveis, abusivos e violentos. Não são poucos os casos de violência doméstica sofrida por mulheres evangélicas. Na base disto, está exatamente a ideia de que (sobretudo) a mulher deve resistir e lutar pelo casamento até o fim, porque, afinal de contas, o divórcio "escandalizaria o nome de Deus".

Obviamente, isto não explica tudo sobre os atos de Flordelis, mas não há dúvida de que, enquanto pastora conhecida e com um rebanho gigantesco, ela tenha preferido "administrar" a culpa privada de arquitetar o assassinato do marido a ter que lidar com a culpa pública de uma separação. Se viver como uma "mulher separada" causaria escândalo e comprometeria sua base evangélica, viver como uma viúva lhe deixaria publicamente "em paz".

Casamentos infelizes, casos extraconjugais, relações de subjugação, constrangimento e violência física, disputa por dinheiro, não são raridades no ambiente evangélico fundamentalista. É verdade que podem não ser raros em quaisquer relações. Mas o fundamentalismo religioso arroga para si a "missão" de ditar as regras, exigir moralidade e virtude, acusar quem "falha", expor quem vacila e condenar quem "peca".

A "saída que Flordelis encontrou não é surpreendente, pela lógica fundamentalista. Inevitavelmente, quase sempre esse rigor moral, essa exigência de uma vida exemplar e santa, é sustentada por uma vida dupla, uma vida privada impregnada de sofrimento e contradições. São "camadas" que, por diversas vezes, envolvem silêncios comprados, ameaças e constrangimento. Uma performance moralista que muitas vezes envolve imagem, poder e dinheiro.

Por isso a família é um elemento central para o fundamentalismo religioso. Porque, socialmente, o casamento "perfeito" e a família "ideal" são as credenciais que lhe colocam no topo da "pirâmide moral". Ser acusado de relacionamento extraconjugal ou de ter filhos fora do casamento são tão abomináveis no fundamentalismo quanto matar, ou mandar matar.

Por isso, para os fundamentalistas, o aborto é um "trunfo". A história, a dor e o trauma de uma jovem que decide abortar não significam nada. O parto, e não a vida necessariamente, é a única coisa que interessa. O parto é o bastante para performar a "defesa da vida". Uma criança de 10 anos pode ser chamada de assassina com a mesma frieza que um pai pode expulsar um filho de casa por ser gay, para que sua casa não "escandalize o nome de Deus".

Isto é absolutamente doloroso e triste. Por estas e outras razões, o fundamentalismo é tão nocivo socialmente. Não há outra coisa que fará, senão estrangular complexidades e diferenças, para impor a insustentável e violenta ética em que o moralismo legalista religioso é mais importante que a vida. A história de Flordelis, ao ser descoberta, se mostrou bizarra, mas, no universo fundamentalista religioso, com ou sem mortes, ela pode ser mais comum do que se imagina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.