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Robinho e seu Deus "particular" contra "pessoas usadas pelo demônio"

Robinho assiste à partida Santos x Atlético-GO, na Vila Belmiro - Ettore Chiereguini/AGIF
Robinho assiste à partida Santos x Atlético-GO, na Vila Belmiro Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

17/10/2020 13h55

Não há outro caso tão comentado quanto o de Robinho no momento. Lembro-me de assistir ao escritor Ariano Suassuna, em uma palestra memorável em Niterói, cerca de dez anos atrás, citando Robinho como exemplo da alegria e a genialidade brasileira. O mundo prega peças.

A divulgação dos áudios, fruto da investigação do caso de estupro coletivo pelo qual Robinho foi condenado, não é apenas uma frustração, se tornou algo maior e pior, com a maneira como os áudios revelam que o jogador banalizou o episódio.

Mas meu artigo não é sobre estes áudios especificamente. O artigo é sobre como, em um curto áudio em que busca demonstrar tranquilidade e segurança, Robinho recorre ao nome de Deus por pelo menos seis vezes. Parece dar ar de normalidade enquanto demonstra ser orientado por "valores cristãos".

Fazendo uso de um linguajar cristão, fortemente evangélico, Robinho ilustra de maneira tristemente exemplar, como Deus pode significar nada, além de um recurso para demonizar adversários, rebater críticas e demonstrar superioridade.

"Esses caras não vão me afetar não, porque Deus tá no controle de tudo", diz Robinho. O que faz Robinho pensar a si mesmo como "inafetável"? A que ele se refere como "tudo" que estaria sob o controle de Deus, diante do abuso desumanizante de que ele participou sem controle, com seus amigos?

"Esses caras aí são pessoas usadas pelo demônio". Sim, demonizar críticas, ou quem contesta suas práticas, também costuma ser comum. Se pessoas que criticam Robinho por sua fala vexatória e debochada sobre o caso foram usadas pelo demônio, quem usou Robinho e seus amigos em um episódio em que uma mulher é abusada coletivamente?

"Porque no deserto, é nesses ataques que você se aproxima de Deus, que você se prepara". A narrativa da perseguição é se projetar como vítima de uma hostilidade, inveja ou complô. Não é à toa que sua referência de exemplo é Jair Bolsonaro.

Faz sentido o paradigma de superação e "preparo" por Deus para Robinho ser alguém que ataca jornalistas quase diariamente, faz piada preconceituosa e sexista em vídeo ao lado de uma criança de 10 anos, e diz para uma mulher que ela não merecia ser estuprada porque era muito feia.

Não tenho como não pensar em como é interessante que pessoas que ostentam um linguajar feito para ostentar "respeito pela moral" e "respeito pelos princípios cristãos" se identificam com o presidente e sua "luta" contra a perseguição que vem de esquerdistas, jornalistas, Rede Globo ou, "pessoas usadas pelo demônio".

Os áudios mostram um Robinho sem qualquer constrangimento, sem arrependimento, sem remorso. Nada que indique qualquer perturbação por ter feito parte de uma situação de estupro coletivo. O jogador está confortável na certeza de que não há como provar sua participação direta. E só.

"Deus vai dar vitória. Que se cumpra o propósito de Deus na minha vida", disse Robinho. Definitivamente, não dá para achar normal essa facilidade de se recorrer ao nome de Deus enquanto se banaliza o respeito a vida de outra pessoa, compactuando e debochando do abuso de sua condição vulnerável.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, Bolsonaro disse para uma mulher que ela não merecia ser estuprada porque ele a considerava muito feia. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.