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Ronilso Pacheco

Consciência Negra não deve ceder à euforia como distração. Deve provocar

A luta nos Estados Unidos e no Brasil: uma brutalidade comum une os países com passado escravagista. Na foto, manifestantes dos protestos pela morte do americano George Floyd - Hannah McKay/Reuters
A luta nos Estados Unidos e no Brasil: uma brutalidade comum une os países com passado escravagista. Na foto, manifestantes dos protestos pela morte do americano George Floyd Imagem: Hannah McKay/Reuters
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

20/11/2020 12h05

Em novembro de um ano qualquer, James Baldwin, certamente um dos nomes mais importantes da literatura dos Estados Unidos (EUA), se interessou em entender sobre o que significava o mês de novembro para o povo negro no Brasil, e qual o impacto do Dia da Consciência Negra.

Perdido na comparação com a realidade dos EUA, um caminho fácil, mas enganoso, que muitas pessoas fazem para avaliar a luta antirracista e as reivindicações do movimento negro no Brasil, Baldwin escreveu para sua amiga-irmã, Lélia González.

Lélia é certamente uma das mais importantes intelectuais brasileiras. No entanto, segue pouco conhecida, o que é uma demonstração evidente do quão racista a academia brasileira ainda consegue ser. E o mercado editorial brasileiro também. Mas Baldwin amava Lélia, e lhe escreveu por isso.

Correspondendo a Baldwin, Lélia foi atenciosa em um diálogo sobre o que significava o 20 de Novembro, e porque a luta por este sentido deveria avançar ainda muito para não morrer, não ser engolida pela folclorização em que a sociedade branca brasileira tem verdadeira fixação por colocar as demandas de negros e negras do país.

"Nosso empenho se dá no sentido de que a sociedade brasileira, ao refletir sobre a situação do segmento negro que dela faz parte, possa voltar-se sobre si mesma e reconhecer nas suas contradições internas as profundas desigualdades raciais que a caracterizam".

Estava evidente para Lélia que novembro não se resume em um mês de "celebração". Novembro seria um mês de provocação. Este país dissimula suas contradições internas, negando o racismo, ou o reconhecendo de maneira abstrata, como algo que existe, mas que ninguém nunca viu.

A brutalidade comum

Mas Lélia tentou explicar a Baldwin como no Brasil a luta para que o dia da Consciência Negra não seja folclorizado é proporcional à fixação que a sociedade brasileira tem em naturalizar o racismo existente. "Para nós o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira", foi o que ela escreveu.

Baldwin entendeu, e escreveu para Lélia de volta comentando, dias depois: "Em uma sociedade que é totalmente hostil e, por sua natureza, parece determinada a cortar você — que já cortou tantos no passado e cortou tantos todos os dias — começa a ser quase impossível distinguir uma lesão real de uma lesão imaginária". "A brutalidade com que os negros são tratados neste país simplesmente não pode ser exagerada, por mais relutantes que os homens brancos possam estar em ouvir isso."

Ao ler esta carta, Lélia percebeu que Baldwin entendeu com mais sensibilidade o contexto brasileiro. Ao dizer "a brutalidade com que os negros são tratados nesse país", Baldwin se referia aos Estados Unidos, mas ela viu o quanto o amigo, como um homem negro americano, estava conectado com ela, uma mulher negra brasileira, que por viver na América e honrar sua ancestralidade africana, se dizia amefricana. Feliz, Lélia escreveu de volta.

"Por isso, a gente vai trabalhar com duas noções que ajudarão a sacar o que a gente pretende caracterizar. A gente tá falando das noções de consciência e de memória. Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber." "É por aí que o discurso ideológico se faz presente."

Os abutres da "pauta negra"

"Já a memória, a gente considera como o não-saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que memória inclui".

Lélia queria que Baldwin entendesse que, com a memória, o povo negro tinha o desafio de não esquecer, não ser cooptado, não ser ludibriado por quem quer lucrar com a "pauta negra". Empresas, mídia, o marketing, organizações, todo mundo, quando a oportunidade surge, pode lucrar com o estreitamento da vida e das oportunidades que a população negra no Brasil forçosamente tem.

Em seu ultimo bilhete, Baldwin mostrou que entendeu: "os pobres estão sempre atravessando o Saara. E os advogados e os homens que emprestam dinheiro para pagar a fiança de toda essa gente, eles ficam rondando em volta dos pobres exatamente como abutres".

Lélia González sabia que Baldwin, ao falar os "pobres", se referia aos negros, e também sabia que "advogados e homens que emprestam dinheiro", se referia aos brancos. Era este o núcleo da conversa entre ele e ela. O dia da Consciência Negra não deveria ceder ao desconhecimento, à euforia como distração. Este governo está aí para mostrar que novembro deve trazer o horizonte das diversas lutas e sonhos de um ano inteiro.

*Esta é uma história fictícia, e contém trechos de James Baldwin extraídos do ensaio "Letter from a Region in My Mind" e de "Se a Rua Beale Falasse", bem como trechos de Lélia González extraídos dos artigos "Por um Feminismo Afro-latino-Americano" e "Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.