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André Santana

"George Floyd evidenciou um grito que é nosso, diário", diz Carlinhos Brown

Em entrevista à coluna, Carlinhos Brown reflete sobre discriminação racial, diversidade e a miscigenação no Brasil - Fábio Rocha
Em entrevista à coluna, Carlinhos Brown reflete sobre discriminação racial, diversidade e a miscigenação no Brasil Imagem: Fábio Rocha
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

20/11/2020 11h06

Neste 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, em entrevista à coluna, Carlinhos Brown aborda a violência racial, a diversidade como potência e chama atenção para as misturas que alimentam e intensificam a unidade brasileira. A conversa ocorreu antes da morte após espancamento de João Alberto Silveira Freitas, em um supermercado do Rio Grande do Sul, que hoje ganhou as manchetes no país.

Em resposta à pouca efetividade do 13 de maio — data da abolição da escravidão em 1888 — os movimentos negros brasileiros afirmaram o 20 de novembro — data da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares —, como o dia realmente a ser celebrado para lembrar as lutas de resistência contra o racismo.

O cantor, compositor, multi-instrumentista e artista visual, Carlinhos Brown, reflete sobre o significado desta data:

"Desperta, em todas as consciências, o respeito à memória, pois a nossa história traz uma memória de dor. Mas fizemos dessa dor, resiliência. E agora queremos fincar uma consciência de que somos iguais. É essa multiplicidade e diversidade que nos faz mais potentes", diz.

Para Brown, o Brasil teve um início confuso, e em mais de quinhentos anos, sua população ainda paga o preço dessa confusão.

"O legado escravocrata deixou marcas profundas e entre elas, um separatismo desrespeitoso com as diversidades culturais. A cultura negra é resiliente. Mostra que podemos sim, vencer. E que estamos evolucionando. Pois cada um que chega a uma posição que pode ajudar, assim tem feito".

E completa: "Para que isso siga crescente, necessitamos seguir estudando e aprendendo mais, e esse aprendizado, de nossa história, de nossas ancestralidades, nos levará a profundos conhecimentos, sobretudo de nós mesmos", acredita.

Carlinhos Brown, Alissan e Thaline Karajá (The Voice Brasil) - Reprodução da TV - Reprodução da TV
Brown apresenta as cantoras Alissan, da Bahia, e Thaline Karajá, do Pará: talentos do Brasil
Imagem: Reprodução da TV
Diversidade na Televisão Brasileira

Esta semana, quando completa 58 anos de idade no dia 23, está sendo muito especial na carreira do artista, que se coloca como um "zelador das causas da positividade".

Nesta quinta-feira (19), Brown foi nomeado Embaixador da Justiça Restaurativa da Bahia, pelo Tribunal de Justiça e Ministério Público do estado.

"Minha busca pessoal e artística é sempre por incentivar e preservar valores como respeito, igualdade e solidariedade", disse, sobre o título.

Também essa semana, Brown participou de uma cena emblemática para a televisão brasileira, em termos de valorização dos grupos étnicos que compõem este país.

Na edição do dia 17 do programa The Voice Brasil, no qual é jurado, Carlinhos Brown apresentou a dupla de cantoras treinadas por ele: a baiana de Salvador, Alissan, e a paraense de Santarém, Thaline Karajá, que evidenciaram a potência das culturas negras e indígenas, frequentemente discriminadas.

A dupla emocionou o público e demais jurados pela qualidade das suas vozes e interpretações no dueto da canção "Divino, Maravilhoso", composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1968.

"Zeladores" da Terra

Presente nas edições adulto e infantil do reality show da Rede Globo que revela talentos musicais, Brown se notabilizou por utilizar os espaço para valorizar a riqueza cultural brasileira, em discursos sobre a miscigenação. Entre os gritos de "Ajaiô", o artista fala sobre os grupos étnicos que constituem a identidade do país, das heranças africanas, dos povos indígenas e da contribuição dos demais imigrantes.

"Todos nós somos escolhidos para habitar a Terra e alguns para zeladores. Nossa mensagem precisa ser conjunta de entendimento e integração. Que a primeira etnia seja a nossa condutora a olhar melhor para essa natureza na qual nós nos dispersamos. Nós estamos queimando Deus visível a cada momento e vamos melhorar por isso. Nem que nossas lágrimas sejam chuvas, nós vamos vencer", discursou no programa desta terça.

Questionado pela coluna sobre a maior presença de pessoas negras na televisão brasileira, Brown celebra:

"Minha percepção é que as mensagens de Ruth de Souza, Grande Otelo, Tony Tornado, Milton Gonçalves, Zezé Motta, dentre tantos outros ícones, passam a ter um efeito, e isso é especial, pois mostra como o mundo não é feito em um dia".

Para ele, esses espaços bem ocupados nos meios de comunicação, e especialmente na televisão brasileira, "também deve ser evidenciado pela gratidão e compreensão desse caminho construído pelas lideranças, que por sua vez, evidenciam aquilo que tem um especial valor, que é o respeito ao ser humano".

Carlinhos Brown, embaixador da Justiça da Bahia - Divulgação - Divulgação
Na véspera do Dia Nacional da Consciência Negra, Brown foi nomeado Embaixador da Justiça Restaurativa da Bahia
Imagem: Divulgação
A bota e o sufoco de George Floyd

Brown considera que o alcance que as discussões sobre os problemas raciais ocuparam este ano de 2020, especialmente após a visibilidade do assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, tem aproximado mais pessoas a conhecer a realidade da população negra.

"George Floyd evidenciou um grito que é nosso, diário. O que aconteceu com ele é infelizmente o que acontece todos os dias no Brasil. O George Floyd se sufoca para fazer o povo negro respirar de novo, e respiramos a partir do momento que podemos clamar que não queremos mais viver situações assim, nem nas nossas comunidades, nem nas ruas, nem em lugar nenhum, com nenhum cidadão".

Inspirados pela repercussão da violência policial ocorrida em Minneapolis (EUA), Brown compôs, em parceria com Guilherme Menezes, a música Abota, lançada em junho.

A bota na cara do homem na rua / A cara do preto no meio da rua / A cara do pobre no meio da rua / O bico da bota na cara da rua (...)

Não consigo respirar / O asfalto está ciente / Não sou o assalto / Não sou o delito / Só sou mais um homem preto / Por favor ouve meu grito

Carnaval 2021: só com vacina

Filho de uma mãe lavadeira e um pai pintor, o menino Antônio Carlos descobriu cedo a perceber o som das latas e dos baldes de água que ajudava a carregar. Estas sonoridades, associadas aos toques das manifestações populares de Salvador, como os sambas e candomblés, formaram um dos músicos mais influentes da cultura brasileira contemporânea.

Em 40 anos de carreira, Brown esteve envolvido em projetos inovadores como a Timbalada, criada na década de 1990, e os Tribalistas, de 2002, e tem no Carnaval um espaço de excelência para expor seu talento inventivo e inquieto.

Sobre a possibilidade de não acontecer o Carnaval em 2021 por conta da pandemia, o artista é assertivo:

"É uma situação que nunca vivemos, mas há experiências que também são necessárias ser vividas. Minha posição é muito clara: não considero que devamos fazer Carnaval sem que verdadeiramente haja uma vacina".

Afrofuturismo

Brown construiu uma trajetória voltada ao impulsionamento de talentos artísticos, através dos seus projetos sociais como a Pracatum, que há 25 anos oferece formação educacional e profissional para jovens do Candeal, bairro onde nasceu em Salvador.

"Imaginamos que só tínhamos um Leonardo da Vinci. Pois nós temos vinte Da Vincis em cada esquina, que por sua vez se dispersaram para buscar formas de sobreviver. Porque estamos em um mundo onde o capital sempre falou mais alto que o espiritual", reflete.

Carlinhos Brown fala sobre racismo no Brasil - Magali Moraes - Magali Moraes
"O que aconteceu com ele [George Floyd] é infelizmente o que acontece todos os dias no Brasil"
Imagem: Magali Moraes

O músico é esperançoso de um futuro de tempos melhores, construído pela integração, e cita o afrofuturismo, movimento estético e político que une ancestralidade africana e inovações tecnológicas:

"O mundo sempre pensou em descobrir no outro, no diferente, a novidade. Tenho muitas letras e pensamentos ao longo da carreira que buscam essa reconstituição. O que nós buscamos é encontrar na ideia desse afrofuturismo que ele seja verdadeiramente uma integração do homem, do espírito, da natureza e da ciência."

"A consciência negra é um brotar desse desejo de que esse futuro venha para frente. Podemos construir tempos melhores juntos e acredito que essa pode ser a base dessa consciência", finaliza.