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Rubens Valente

Deputada minimiza Covid: "Na Índia comem com a mão e números não crescem"

Pessoas são vistas dentro de um centro de quarentena temporário, durante um longo bloqueio nacional para retardar a propagação da doença por coronavírus, em Calcutá, Índia - RUPAK DE CHOWDHURI/REUTERS
Pessoas são vistas dentro de um centro de quarentena temporário, durante um longo bloqueio nacional para retardar a propagação da doença por coronavírus, em Calcutá, Índia Imagem: RUPAK DE CHOWDHURI/REUTERS
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

16/04/2020 10h23Atualizada em 16/04/2020 14h45

A deputada federal Paula Belmonte (Cidadania-DF) minimizou os efeitos da Covid-19 no Brasil, durante uma reunião virtual da comissão externa instalada pela Câmara dos Deputados sobre o novo coronavírus, e disse que querem criar "pânico social".

Paula também apresentou um projeto de lei que pretende permitir um procedimento chamado de ozonioterapia no tratamento dos casos de Covid-19 em todo o território nacional, embora a própria deputada reconheça, na justificativa do seu projeto de lei, que "ainda não há qualquer evidência científica relacionada à efetividade da ozonioterapia na prevenção ou tratamento para o coronavírus".

A parlamentar disse que não se deve comparar os números da doença no Brasil com os da Europa, mas sim com os da Índia. "A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, é um país que culturalmente eles comem com a mão. Grande maioria das pessoas, isso não depende da classe social, isso é algo cultural deles. Eles também têm um país que a cultura deles fazem [sic] com que eles se beijem, se abracem. E os números não crescem. Por que será? Então eu vejo que temos que olhar a nossa realidade com países também que são aglomerados que nem os nossos. E também não trazer esse pânico social", disse a deputada.

A Índia registrava, até a manhã desta quinta-feira (16), 12,4 mil casos e 423 mortes. O Brasil, sexto país mais populoso, tinha 29 mil casos e 1,7 mil mortos. Contudo, os dois países testam muito pouco a população. Na Índia são 199 testes por milhão de habitantes; no Brasil, 296 por milhão. Nos EUA, por exemplo, o número é de 9,8 mil testes/milhão. Também não é correta a afirmação de que os casos "não crescem" na Índia. Apenas no dia 9 de abril, o país registrou 49 mortes causadas pela Covid-19. No dia anterior, haviam sido 18. O número de infectados saltou de 1,7 mil, no último dia 1º, para 10,4 mil ontem.

Além disso, a deputada não levou em conta que a Índia adotou a estratégia do isolamento social ainda em março, o que pode ter colaborado para a redução da curva dos casos. É considerado o maior isolamento do mundo, envolvendo 1 bilhão de pessoas, e foi prorrogado pelo governo até maio.

As declarações da parlamentar foram feitas na tarde da terça-feira (14) em uma videoconferência da comissão externa de ações preventivas sobre o novo coronavírus no Brasil da Câmara dos Deputados. A deputada é casada com o advogado Luís Felipe Belmonte, que é o segundo-vice-presidente da Aliança pelo Brasil, lançada pelo presidente Jair Bolsonaro para tentar criar um partido político.

Na conversa com os deputados, Paula atacou a estratégia do isolamento social. "Isso tudo gera uma doença, que é a doença psicológica. A esperança não é simplesmente a gente trancar todo mundo." Para ela, "é importante que a gente salve o ser humano não só da pandemia, mas que a gente salve a nossa população brasileira de todos os males sujeitos a acontecer". Paula considerou que o número de mortos no Brasil será "o mínimo possível".

"Estamos falando da pandemia e estamos trazendo o pânico social. Estamos tendo infelizmente uma subnotificação. Mas temos um número que é real, o número de mortos, e esse número de mortos graças a Deus não tem crescido como estava nas estatísticas. Isso é muito importante dizer. [...] Eu sei que todos estão aqui com boa vontade para auxiliar nosso povo. Mas que a gente tenha muita responsabilidade nesse pânico social que está sendo formado. Porque o Estado só tem dinheiro se existe a iniciativa privada, se existe o trabalhador, se existe a empresa. Então o Estado não tem dinheiro. Quem gera emprego é quem trabalhar e quem faz o trabalho. E nós precisamos estar unidos para essa, essa, essa pauta. Não a pauta de milhares de pessoas que vão morrer. Se Deus quiser, não vão morrer mais ou vão morrer o mínimo possível", disse a parlamentar na videoconferência.

Gases e homeopatia

Paula Belmonte também apresentou, no último dia 1º, um projeto de lei que pretende autorizar o uso da ozonioterapia como procedimento médico complementar em todos os casos de Covid-19 no país. Ozonioterapia envolve a aplicação de gases oxigênio e ozônio por diversas vias, como intravenosa ou intramuscular, segundo o CFM (Conselho Federal de Medicina), que vê a prática com muita reserva.

Na justificativa que encaminhou ao Congresso, a própria deputada salientou: "É pacífico que ainda não há qualquer evidência científica relacionada à efetividade da ozonioterapia na prevenção ou tratamento para o coronavírus, entretanto, possibilitar que a comunidade médica utilize o tratamento quando julgar necessário pode se tornar benéfico, afinal, 'essa terapia vem sendo cada vez mais estudada com intuito de auxiliar em tratamentos de feridas extensas, infecções fúngicas, bacterianas e virais, lesões isquêmicas e várias outras afecções, tendo se mostrado muito eficaz na maioria dos casos'".

Há um outro projeto de lei em andamento no Senado sobre a ]ozonioterapia desde 2017. Em dezembro daquele ano, o CFM e 55 entidades da área de saúde rejeitaram a proposta. Em nota pública na ocasião, as entidades disseram que o procedimento "expõe os pacientes a riscos, como retardo do início de tratamentos eficazes, avanço de doenças e comprometimento da saúde".

"Não há na história da medicina registro de droga ou procedimento contra um número tão amplo de doenças, que incluem, entre outros: todos os tipos de diarreia; artrites; hepatites; hérnias de disco; doenças de origem infecciosa, inflamatória e isquêmica; autismo; e sequelas de câncer e de Acidente Vascular Cerebral (AVC)", diz um trecho do documento.

O CFM emitiu uma resolução que permite o uso da ozonioterapia apenas em caráter experimental, com plena autorização do paciente, dentro de estudos que observem "critérios definidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep)".

Em outra reunião virtual da comissão externa da Câmara sobre o coronavírus, na quarta-feira (15), a parlamentar também que seja discutida a homeopatia no tratamento dos casos de Covid-19 no Brasil. Ela sugeriu que seja convidada a associação homeopática para discutir o assunto. A homeopatia é um tipo de terapia de tratamento.

Errata: Diferentemente do que saiu publicado numa versão anterior deste texto, as 49 mortes foram registradas na Índia no dia 9 de abril, e não de maio. O texto já foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.