PUBLICIDADE
Topo

Saúde de 'cidade indígena' entra em colapso e prefeito decreta 'lockdown'

Distribuição de máscaras na comunidade indígena de Boa Esperança, na BR-307, onde foi registrado um óbito de indígena registrado por Covid-19, em São Gabriel da Cachoeira (AM) - DSEI-ARN (Distrito Sanitário Especial Indígena)
Distribuição de máscaras na comunidade indígena de Boa Esperança, na BR-307, onde foi registrado um óbito de indígena registrado por Covid-19, em São Gabriel da Cachoeira (AM) Imagem: DSEI-ARN (Distrito Sanitário Especial Indígena)
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

09/05/2020 12h13Atualizada em 10/05/2020 16h52

A pandemia da Covid-19 colapsou o sistema de saúde de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município "mais indígena do Brasil" com cerca de 45 mil habitantes. São quatro indígenas mortos e 41 contaminados em um município que não possui UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e agora clama pela criação urgente de um hospital de campanha.

O prefeito Clóvis Saldanha (PT), o "Corubão", também infectado pela doença, foi transferido às pressas para Manaus (AM). Ele autorizou o bloqueio de circulação na cidade, o chamado "lockdown", cujo decreto foi assinado nesta sexta-feira (8) pelo prefeito em exercício, Pascoal Alcântara.

Autoridades municipais, organizações indígenas como a Foirn e organizações não governamentais que atuam na região, como o ISA (Instituto Socioambiental), estão agora mobilizados para obter um hospital de campanha. O único hospital é do Exército, o HGuSCG (Hospital de Guarnição de São Gabriel), que luta contra a pandemia com apoio da prefeitura e normalmente já vive sobrecarregado com altos índices de malária e dengue.

Os casos da Covid-19 explodiram na cidade, com registros já em comunidades mais distantes da área central. Os casos cresceram 583% de 1º a 7 de maio. O hospital informou por escrito ao MPF (Ministério Público Federal) que deverá improvisar cinco leitos para "cuidados intensivos", até que ocorra "a regulação e evacuação aeromédica" do paciente.

A UTI mais próxima fica em Manaus, a cerca de 1 mil km, onde unidades do gênero já estão todas completamente sobrecarregadas. Os únicos acessos a São Gabriel são por via fluvial e aérea. Desde o início da pandemia não há mais linhas aéreas regulares, o que ajudou a conter a pandemia no primeiro momento. São quase duas horas de avião pequeno até Manaus. Um voo fretado é estimado em cerca de R$ 20 mil. Uma viagem em lancha rápida leva 24 horas até Manaus.

Na última quarta-feira (6), o hospital militar dispunha de apenas seis respiradores em condições de funcionamento. Em uma gravação dramática que distribuiu entre os profissionais de saúde para pedir ajuda na quinta-feira (7), o secretário municipal de Saúde, Fábio Sampaio, relatou a crise no hospital militar. "Nosso hospital já entrou em colapso. O [governo do] Estado está me pedindo para mandar profissionais para o hospital, mas nossos profissionais da Secretaria estão todos sobrecarregados. A diretora [do hospital] está desesperada, a situação está difícil. Tô vendo se alguma instituição tem algum técnico para mandar para lá."

Em ofício enviado ao procurador da República em Manaus Fernando Soave, o hospital descreveu um quadro "limítrofe". "Na caracterizada pandemia, qualquer planejamento foi vencido. Portanto, todo e qualquer apoio será bem-vindo, como unidade de saúde", informou a diretora do hospital, a tenente-coronel Anaditália Pinheiro Viana Araújo.

"Para a manutenção dos pacientes sob respiração médica, é necessário o emprego de bloqueadores neuromusculares, que se encontram sob limites mínimos, em consequência do aumento da demanda. São necessários antibióticos, empregados no tratamento de casos suspeitos ou confirmados, estando estes medicamentos também em situações limítrofes."

Estima-se que 750 comunidades de 23 povos indígenas diferentes vivam no imenso município de São Gabriel, que abrange 109 mil km², o equivalente à Islândia ou à Coreia do Sul, na região conhecida como "Cabeça do Cachorro". As distâncias são imensas e o risco de que a doença chegue a uma aldeia e saia rapidamente do controle é agora o maior medo dos indígenas.

Marivelton Baré, liderança indígena da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), disse que já houve dois óbitos de indígenas em suas comunidades, o que projeta uma sombra sobre a saúde nas mais de 750 comunidades, distantes muitas horas de barco da cidade.

"A cidade está toda colapsada, no sistema de saúde. Tem tido casos de óbitos na própria residência. O HGU tem apenas sete respiradores, superlotada, com altos índices de casos positivos. Aqui está faltando principalmente um hospital de campanha e toda a estrutura para enfrentar esse alto índice. Não há teste para todo mundo, não temos profissionais de saúde", disse Marivelton.

Os indígenas estão mobilizados na distribuição de máscaras e na orientação, por rádio, para que seus parentes permaneçam nas aldeias.

"O mais preocupante é que já está atingindo as comunidades indígenas do entorno de São Gabriel. Cerca de metade dos moradores vive na parte urbana e a outra metade nas comunidades indígenas. Os mais afastados. A primeira recomendação é que não saiam de suas comunidades, precisa ser garantida uma segurança alimentar para que não venham para a cidade", disse Juliana Radler, representante do ISA no comitê de crise da Covid-19 em São Gabriel.

O CMA (Comando Militar da Amazônia) informou, neste domingo (10), que, junto com o "9º Distrito Naval e ALA 8, estão sendo realizados esforços continuados para que as comunidades indígenas e a população local do Alto Rio Negro se mantenham permanentemente apoiadas, de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde e diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Defesa e Comando do Exército no combate à Covid-19".

O Exército não respondeu às indagações da coluna sobre se há superlotação e qual a condição geral do hospital militar em relação à Covid-19.

"O Comando Conjunto Amazônia permanece disponibilizando recursos operacionais e logísticos possíveis para apoiar as demandas dos órgãos de saúde estaduais e municipais. Por fim, o Exército Brasileiro nasceu do indígena e da mistura de raças, e prossegue no apoio e proteção à população e ao meio ambiente da Amazônia. Fez isso ontem, faz hoje e fará para sempre."
A coluna também procurou, no sábado, o Ministério da Saúde e a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), em Brasília, mas não houve resposta até o fechamento do texto.

Rubens Valente